O apoio do governo de Donald Trump à entrada de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos passou a ser alvo de críticas de parlamentares e candidatos do Partido Democrata às vésperas das eleições legislativas americanas. O senador brasileiro deixou o país acompanhado da mulher e das duas filhas e chegou a Miami na manhã de quarta-feira (28), sob uma autorização temporária concedida por ordem do presidente dos Estados Unidos.
De acordo com reportagem do jornal The New York Times, a viagem da família foi realizada em um jato particular providenciado por um funcionário da Casa Branca. Ao desembarcarem, os integrantes da família foram liberados por agentes de fronteira sob o regime de parole, mecanismo que permite a permanência temporária de estrangeiros nos Estados Unidos enquanto um pedido de entrada é analisado.
O recurso costuma ser aplicado em situações consideradas de urgência humanitária ou de benefício público significativo. No caso de Flávio Bolsonaro, a autorização passou a ser questionada por democratas, que também pedem esclarecimentos sobre a eventual utilização de recursos públicos na operação de saída do senador brasileiro.
As críticas ocorrem em um momento de endurecimento das políticas de imigração e refúgio adotadas pelo governo Trump. O tema também se tornou parte dos debates internos nos Estados Unidos sobre a destinação de verbas públicas, especialmente em áreas como saúde e segurança.
Congressistas democratas criticam decisão
Ao menos dez políticos americanos já manifestaram insatisfação com a decisão. A maior parte deles integra o Congresso dos Estados Unidos. Deputados federais democratas como Shri Thanedar, Joaquin Castro e Jim McGovern condenaram o que classificaram como um “refúgio” oferecido a Flávio Bolsonaro e cobraram explicações da administração Trump.
McGovern associou o senador brasileiro ao fascismo e afirmou que a viagem aos Estados Unidos poderia representar uma tentativa do secretário de Estado americano, Marco Rubio, de atuar contra a Justiça brasileira. Em uma publicação, o deputado declarou que Flávio Bolsonaro seria um estrangeiro sob investigação criminal e acusou Rubio de conspirar para ajudá-lo a escapar da responsabilização.
Na mesma mensagem, McGovern afirmou que integrantes considerados fascistas e autoritários costumavam buscar países como Rússia ou Arábia Saudita para evitar consequências judiciais, mas que a atual administração americana estaria recebendo essas pessoas nos Estados Unidos.
Outro crítico destacado é Isaiah Martin, candidato democrata à Câmara dos Representantes pelo Texas. Em uma série de publicações, Martin ameaçou deportar o senador brasileiro e questionou se o deslocamento da família teria sido custeado com dinheiro público.
O candidato também criticou uma manifestação de Flávio Bolsonaro na qual o senador teria agradecido ao povo americano pelo acolhimento. Para Martin, a decisão não partiu da população, mas de Donald Trump. Ele afirmou ainda que os recursos dos contribuintes deveriam ser direcionados ao sistema de saúde, às estradas e às escolas americanas, e não à permanência do brasileiro no país.
Bancada questiona tratamento dado à família Bolsonaro
A bancada democrata da Comissão de Relações Exteriores da Câmara também se posicionou contra a ajuda concedida à família Bolsonaro. Em uma publicação nas redes sociais, o grupo comparou a decisão com a situação de pessoas que buscam asilo por causa da guerra no Sudão ou do conflito no Haiti.
Segundo os democratas, enquanto pedidos relacionados a esses conflitos não recebem o mesmo tratamento, Marco Rubio estaria “estendendo o tapete vermelho” para Bolsonaro. As manifestações ampliaram a pressão política sobre o governo Trump antes das eleições de meio de mandato.
Apesar das declarações sobre uma possível deportação, congressistas não têm autoridade direta para determinar esse tipo de medida. O professor e diplomata Paulo Roberto de Almeida explicou que o Congresso americano pode estabelecer políticas gerais, inclusive relacionadas à política externa, além de aprovar moções e recomendações.
As decisões executivas sobre asilo, deportação, expulsão e acolhimento, no entanto, cabem ao Poder Executivo, especialmente ao Departamento de Estado e ao Departamento de Justiça. De acordo com Almeida, os parlamentares podem aprovar uma moção de repúdio à família Bolsonaro, mas qualquer consequência concreta dependeria de uma iniciativa do governo.
Eleições legislativas ocorrem na próxima terça-feira
Nos Estados Unidos, a escolha do presidente e a eleição dos representantes do Congresso ocorrem em processos separados. Na próxima terça-feira (3), os eleitores participarão das chamadas midterms, as eleições de meio de mandato que definem a composição do Congresso americano.
Os parlamentares eleitos só assumirão seus cargos no Capitólio em fevereiro do ano que vem. Diferentemente da eleição presidencial, a disputa pelas vagas do Congresso é decidida pelo voto direto, sem participação do Colégio Eleitoral. Em geral, vence o candidato que obtém mais votos em seu distrito ou estado.
Cada estado é responsável pela organização e pela apuração da própria votação. Por isso, as primeiras projeções podem ser divulgadas na noite de 3 de novembro, mas a definição sobre qual partido terá maioria na Câmara e no Senado pode levar vários dias. O processo é influenciado pelo modelo de votação adotado nos Estados Unidos, que utiliza cédulas de papel.









