Pesquisadores reconstruíram digitalmente o rosto de um homem que viveu há quase 2 mil anos e foi enterrado nas proximidades do forte romano de Inveresk, perto de Edimburgo, na Escócia. A análise dos restos mortais indica que ele tinha pouco mais de 50 anos quando morreu, entre 140 e 165 d.C. O sepultamento faz parte de um conjunto de seis encontrados na região, dos quais quatro pertenciam a homens que tiveram a cabeça separada do corpo após a morte.
O trabalho de reconstrução foi realizado pelo antropólogo forense Christopher Rynn, que atua no Reino Unido. A representação mostra um homem de olhos castanhos, cabelos escuros com sinais de embranquecimento e rugas ao redor dos olhos. Para produzir a imagem, o especialista reuniu dados obtidos a partir do crânio, de análises de DNA antigo e da composição química preservada nos restos mortais.
Esqueleto revela limitações físicas e lesões antigas
O exame do esqueleto aponta que o homem teve uma vida fisicamente exigente. Entre as marcas identificadas pelos pesquisadores estão um nariz quebrado, que já havia cicatrizado, e uma limitação grave nos movimentos do braço direito.
De acordo com os Museus Nacionais da Escócia, a articulação do cotovelo apresentava um crescimento ósseo acentuado. A alteração provavelmente foi causada por artrite séptica, uma inflamação decorrente de infecção que pode comprometer de forma significativa os movimentos da articulação.
A limitação era tão severa que, segundo a equipe, o homem dificilmente teria condições de empunhar uma espada no período próximo à sua morte. Por isso, os pesquisadores avaliam que ele provavelmente não atuava como combatente. O desgaste intenso observado nos dentes da frente também pode indicar que ele segurava objetos entre os dentes para compensar a dificuldade de movimentar o braço.
Apesar disso, a possibilidade de uma ligação com o exército romano não foi descartada. A estrutura militar do Império incluía pessoas que não participavam diretamente dos combates, como artesãos, funcionários e auxiliares. Dessa forma, o homem poderia ter desempenhado alguma função relacionada ao forte sem necessariamente ter sido um soldado de linha de frente.
Decapitações são as primeiras identificadas na Escócia romana
A presença de decapitações após a morte é um dos aspectos mais incomuns dos sepultamentos encontrados em Inveresk. Dos seis homens adultos identificados no local, quatro tiveram a cabeça separada do corpo. Os casos são considerados os primeiros exemplos conhecidos dessa prática na Escócia romana e estão entre os mais antigos já encontrados na Grã-Bretanha.
Os motivos do procedimento ainda não foram determinados. Conforme os pesquisadores, a prática pode ter relação com punições, com as circunstâncias da morte ou com crenças sobrenaturais. O significado do ritual também pode ter mudado ao longo do tempo e variado de acordo com as tradições de diferentes comunidades.
Uma hipótese está relacionada à origem geográfica do homem. Sepultamentos com características semelhantes foram encontrados no sul da Grã-Bretanha, região onde ele provavelmente passou a infância. A decapitação, portanto, poderia fazer parte de uma tradição funerária adotada por algumas comunidades daquela área.
Outros elementos indicam, no entanto, que o indivíduo recebeu um enterro digno. Esse tratamento o diferencia, por exemplo, do destino frequentemente reservado a criminosos executados durante o período romano. A combinação entre um sepultamento cuidadoso e a decapitação torna ainda mais difícil estabelecer com precisão o significado do ritual.
DNA, isótopos e análise do crânio ajudaram na reconstrução
A investigação reuniu especialistas dos Museus Nacionais da Escócia, da Universidade de Durham, da Universidade de York e da Escola de Medicina de Harvard. Os pesquisadores avaliaram os ossos, analisaram isótopos e examinaram o DNA antigo para investigar as características físicas, a origem geográfica e aspectos da trajetória de vida do homem.
As análises isotópicas observam variações de elementos químicos preservadas nos ossos e nos dentes. Como a alimentação e a água consumidas durante a vida deixam registros nesses tecidos, os cientistas podem comparar esses sinais com padrões identificados em diferentes regiões.
No caso do homem de Inveresk, os resultados apontaram que ele passou a infância no sul da Grã-Bretanha. A costa da atual Holanda, porém, não foi totalmente descartada, pois poderia apresentar características químicas semelhantes às encontradas nos restos mortais.
Com base nessas informações e na estrutura do crânio, Christopher Rynn elaborou a face digital. A técnica utiliza as características ósseas para estimar elementos como o formato do rosto, a posição dos olhos e a espessura dos tecidos faciais.
“Adotar uma abordagem interdisciplinar para a análise de restos humanos permite-nos compreender os atributos físicos desses indivíduos, bem como as suas histórias de vida”, afirmou Jess Thompson, curadora de osteoarqueologia dos Museus Nacionais da Escócia. Segundo ela, a reconstrução combina ciência e interpretação artística para aproximar o público das pessoas que viveram no passado.
Forte fazia parte da expansão romana na Escócia
Construído por volta de 140 d.C., o forte de Inveresk funcionava como centro militar e de abastecimento durante a expansão do Império Romano pela Escócia. A região também estava ligada à Muralha de Antonino, erguida entre os rios Forth e Clyde, muito além da conhecida Muralha de Adriano. Por volta de 162 d.C., os romanos recuaram novamente para a Muralha de Adriano.
As escavações em Inveresk também encontraram dois altares de pedra dedicados ao culto de Mitra, uma religião secreta e exclusivamente masculina que era popular entre soldados romanos. Datadas da década de 140 d.C., as peças apresentam imagens do deus Sol, das quatro estações do ano e de símbolos relacionados a Mitra e Apolo. Os dois altares foram dedicados por um centurião que provavelmente comandava a guarnição do forte.
Durante a conservação dos monumentos, foram encontrados vestígios de tinta nas esculturas. A descoberta indica que os altares originalmente eram pintados com cores vibrantes, segundo os Museus Nacionais da Escócia. Esses objetos contribuem para o estudo das crenças religiosas e do cotidiano das tropas instaladas na fronteira do Império Romano.
Para Fraser Hunter, curador principal de Pré-história e Arqueologia Romana dos Museus Nacionais da Escócia, a reconstrução oferece uma nova forma de compreender as pessoas que viveram na região. Ele afirmou que trabalha há anos com os achados da Inveresk romana, mas que a representação facial permitiu, finalmente, imaginar como era um dos habitantes do local.
As descobertas serão apresentadas na exposição “Escócia Romana: Vida na Fronteira do Império”, no Museu Nacional da Escócia, entre 14 de novembro de 2026 e 18 de abril de 2027. A mostra reunirá os altares e outros objetos arqueológicos, além do crânio do homem decapitado e de sua reconstrução facial digital. A exposição abordará a vida dos soldados, das comunidades próximas aos fortes e dos habitantes locais afetados pela ocupação romana.
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