A possibilidade de uma nova escalada militar entre Estados Unidos e Irã após as eleições de meio de mandato americanas, marcadas para a próxima terça-feira (3), aumentou a apreensão em países do Oriente Médio. A falta de informações claras por parte de Washington e os discursos de confronto feitos por autoridades iranianas deixaram moradores da região em estado de alerta, especialmente nos países árabes do Golfo.
“O clima definitivamente mudou”, afirmou à CNN uma americana de 36 anos que vive na Arábia Saudita. Ela decidiu deixar o país antes da votação, depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, indicou que novos combates poderiam ocorrer após as eleições.
Segundo ela, moradores e trabalhadores passaram a adotar uma postura mais cautelosa, enquanto aguardam sinais sobre os próximos passos dos governos. Em residências, escritórios e escolas dos países do Golfo, as dúvidas se concentram na possibilidade de fechamento de instituições de ensino, cancelamento de voos e interrupções nas atividades econômicas.
O conflito começou em fevereiro, quando Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã que resultaram na morte do líder supremo Ali Khamenei. Nesta semana, a guerra entrou em seu oitavo mês, sem que nenhum dos lados consiga romper o impasse militar. As negociações diplomáticas também não produziram avanços significativos.
Trump tem alternado ameaças de novas operações militares com declarações favoráveis à busca de uma solução diplomática, sem esclarecer qual é o objetivo final de Washington. No início deste mês, o presidente americano afirmou, em uma publicação nas redes sociais, que os Estados Unidos “não atacarão o Irã em nenhum momento antes das eleições de meio de mandato”. A ausência de uma confirmação ou de uma negativa sobre o período posterior à votação é uma das principais fontes de preocupação na região.
“Os EUA têm alimentado ativamente essa sensação de ansiedade em toda a região ao continuar sinalizando que uma nova escalada pode ser iminente”, afirmou à CNN Hasan Alhasan, pesquisador sênior de política para o Oriente Médio no Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. Para ele, porém, tornou-se difícil diferenciar as táticas de pressão das indicações de que uma operação militar realmente esteja sendo planejada.
A permanência do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, também contribui para o cenário de incerteza. Netanyahu participou dos ataques contra o Irã ao lado dos Estados Unidos e defende novos bombardeios. Apesar de ter perdido a maioria parlamentar nas eleições recentes, ele continuará no cargo. As negociações para a formação de um novo governo israelense devem se intensificar na próxima semana, mas os resultados eleitorais indicam que a oposição dificilmente conseguirá afastá-lo rapidamente.
Moradores recorrem a rumores e redes sociais
Na ausência de comunicados oficiais, moradores de países da região passaram a acompanhar rumores e movimentações militares divulgados nas redes sociais. O objetivo é tentar identificar sinais de que um ataque americano esteja próximo e se preparar para possíveis consequências.
Nas últimas semanas, comandantes militares iranianos intensificaram declarações públicas sobre a capacidade bélica do país. Eles afirmam que Teerã acumulou grandes estoques de novas armas e que possui meios para atingir mais alvos e provocar danos superiores aos registrados anteriormente.
Um alto funcionário de segurança iraniano disse à CNN que, em caso de retomada do conflito, o país pretende atacar infraestruturas além das instalações petrolíferas, incluindo sistemas de inteligência artificial. Segundo ele, a nova fase poderia se transformar em uma longa “guerra de surpresas”.
No sábado, o líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, determinou que qualquer resposta a uma nova ameaça seja realizada “sem limitações geográficas”. A declaração foi interpretada como uma tentativa de demonstrar que ele continua envolvido nos preparativos militares do país.
A guerra abalou a sensação de segurança de trabalhadores estrangeiros que vivem nos ricos Estados árabes do Golfo. Muitos foram atraídos para a região por oportunidades econômicas e pelo estilo de vida sem impostos e, durante décadas, permaneceram em países relativamente estáveis, apesar dos conflitos no Oriente Médio.
Neste ano, porém, o Irã lançou ataques sem precedentes com mísseis balísticos e drones contra cidades árabes. As ofensivas interromperam aulas, viagens e atividades econômicas, além de provocarem vítimas. Mesmo assim, muitos moradores optaram por permanecer na região, confiantes na proteção oferecida pelas forças militares dos países do Golfo.
“Estou tentando ativamente não pensar que isso possa acontecer de novo, porque realmente não quero passar outro inverno sob ataques”, disse Michelle, uma americana de 36 anos que mora em Abu Dhabi. Ela afirmou que sempre se sentiu segura na cidade, mas teme que sua rotina precise ser alterada novamente.
A ansiedade aumentou neste mês, quando moradores descobriram que familiares de diplomatas americanos começaram a deixar discretamente a região. As partidas só se tornaram conhecidas depois que os filhos dessas famílias se despediram dos colegas nas escolas. Muitos dos que saíram haviam retornado recentemente aos postos de trabalho após terem sido retirados durante o auge da guerra, em março.
Países do Golfo adotam medidas de precaução
Relatos sobre o envio de milhares de soldados americanos para a região também ampliaram a preocupação. Na Arábia Saudita, grandes eventos já foram cancelados e alguns escritórios passaram a operar remotamente após a intensificação dos ataques realizados pelos rebeldes houthis, aliados do Irã.
Moradores sauditas disseram temer que uma retomada da guerra aumente a pressão sobre um país que já enfrenta conflitos em sua fronteira sul. “Meus vizinhos e amigos estão se preparando para novembro, mas já começaram a se preocupar com possíveis interrupções em voos durante as festas de fim de ano”, afirmou a americana ouvida pela CNN. Ela relatou ainda que muitas empresas reduziram equipes ou adotaram o trabalho virtual, enquanto escolas passaram a utilizar o ensino remoto.
Em Abu Dhabi, onde não foram registrados ataques desde maio, duas empresas petrolíferas americanas cancelaram a participação de seus executivos em uma das maiores conferências de petróleo da região, segundo a Reuters. O evento, no entanto, será realizado conforme o planejado e deve reunir forte presença dos Estados Unidos, além de mais de 120 empresas expositoras americanas. A expectativa dos organizadores é receber quase 240 mil participantes.
No Bahrein, um dos países mais atingidos pelo Irã neste ano, os efeitos psicológicos da guerra continuam presentes. “Ainda existe aquele trauma”, disse Fawaz, de 21 anos. Segundo ele, o som dos bombardeios provoca medo e dificulta o sono, especialmente quando há ataques acontecendo nas proximidades. Embora parte da população tenha se acostumado à situação, ele afirmou que a experiência continua sendo assustadora.
Negociações diplomáticas seguem apesar das ameaças
Ao mesmo tempo em que aumentam os temores de uma nova ofensiva, os esforços diplomáticos foram intensificados de forma discreta na última semana. O vice-presidente americano, JD Vance, enviou uma carta a Mohsen Rezaei, principal autoridade de segurança iraniana. O documento está sendo analisado pelo governo da República Islâmica, segundo a imprensa iraniana.
Trump afirmou que a mensagem estava relacionada a um pedido iraniano de suprimentos médicos. Ainda assim, o envio alimentou expectativas de que um acordo diplomático possa ser alcançado.
Autoridades iranianas também estão no Catar para negociações, de acordo com uma autoridade catariana. O país tem desempenhado um papel central na mediação entre as partes, embora não houvesse uma delegação americana presente no sábado.
Em contraste com as advertências feitas por Trump, Tom Barrack, embaixador dos Estados Unidos na Turquia e enviado especial americano para Síria e Iraque, afirmou à CNN acreditar que avanços importantes podem ocorrer nas próximas duas semanas. “Estamos perto. Acho que estamos muito perto de finalmente dizer: vamos simplesmente fazer uma pausa”, declarou. Ele ressaltou, porém, que qualquer entendimento dependerá de confiança e de qual lado estará disposto a dar o primeiro passo.
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmou no sábado que não faria uma avaliação sobre o andamento das negociações nas 48 horas anteriores, mas disse que Washington continuaria aberto a uma solução diplomática. Questionado sobre a existência de um prazo para que as conversas avancem antes da retomada de uma ação militar, Rubio respondeu que não sabia se havia uma data definida e afirmou que a decisão caberia ao presidente.
Segundo o secretário, existem múltiplas negociações em andamento, algumas diretas e outras intermediadas por terceiros. Rubio declarou que a preferência de Trump é resolver desafios internacionais por meios diplomáticos e pacíficos, embora tenha reconhecido que nem todas as questões podem ser solucionadas dessa maneira.
Ele acrescentou que qualquer acordo deverá proteger a segurança nacional dos Estados Unidos e atender às principais preocupações de Washington, especialmente em relação ao programa nuclear iraniano.
Autoridades do Irã dizem estar abertas ao diálogo, mas afirmam não confiar que as negociações sejam suficientes para impedir novos ataques militares. O governo iraniano cita episódios anteriores em que o país foi alvo de operações durante períodos de conversas diplomáticas.
Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano e responsável pelas negociações com os Estados Unidos, declarou que Teerã não pretende fazer concessões. Segundo ele, as condições do Irã foram apresentadas de forma clara aos mediadores e qualquer avanço dependerá da aceitação das sete exigências iranianas.









