Muitas pessoas já experimentaram a sensação de ter uma música grudada na cabeça durante todo o dia. Esse fenômeno, popularmente conhecido como “música chiclete”, é descrito na literatura científica como imagens musicais involuntárias. Especialistas consultados destacam que essa situação ocorre devido à capacidade do cérebro humano de reconhecer e prever padrões sonoros.
As canções que tendem a se fixar na mente são geralmente aquelas com melodias simples, refrões repetitivos, letras cativantes e ritmos marcantes, podendo se tornar memoráveis mesmo após uma única audição. A partir desse momento, um trecho da música se repete incessantemente, enquanto o cérebro tenta completar a frase ou resolver uma tarefa inacabada.
Segundo o neurocientista Leandro Freitas Oliveira, professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), algumas músicas combinam repetição com características de familiaridade, facilitando a fixação. Quanto mais conhecida a música, mais padrões já existentes no cérebro são ativados. Isso explica por que muitas canções contemporâneas seguem fórmulas semelhantes, intercalando pequenas inovações para evitar a monotonia. Dessa forma, o cérebro tende a completar os padrões que não estão totalmente finalizados.
O neurologista Lucio Huebra, do Hospital Sírio-Libanês, acrescenta que a “prisão” da música na mente ocorre devido à estimulação do córtex auditivo, região responsável pelo processamento das informações sonoras. Além disso, áreas relacionadas à memória, como o hipocampo, e aquelas associadas à atenção, emoções e ao sistema de recompensa, também desempenham um papel no processo.
Esse fenômeno é mais comum em situações de baixa demanda cognitiva, como quando se está em uma fila, dirigindo, tomando banho ou em momentos de fadiga e estresse. Nesses contextos, a repetição da música se intensifica.
Diante da pergunta sobre como se livrar dessas músicas repetitivas, os especialistas afirmam que existem métodos eficazes. Um deles é a mastigação de chiclete. Estudos indicam que esse ato pode ajudar a interromper o ciclo mental das músicas, interferindo na programação motora articulatória, que é um componente da construção da representação auditiva no cérebro.
Embora essa sensação de ter uma música na mente possa parecer um inconveniente, na verdade, ela é um indicativo de que o cérebro está funcionando de maneira adequada. Oliveira ressalta que esse processo envolve memória, atenção, emoções e imaginação auditiva. Ao ouvir uma música, o cérebro não apenas a recebe, mas a reconstrói internamente, o que demonstra como a música é uma forma poderosa de memória, unindo som, emoção e identidade pessoal.
No entanto, a persistência desse fenômeno deve ser observada. Se a música se tornar muito intrusiva ou causar sofrimento, é essencial investigar possíveis alterações neurológicas, problemas auditivos, distúrbios do sono e outros fatores que possam estar envolvidos, conforme alerta Oliveira.









