A crise entre Brasil e Argentina ganhou contornos diplomáticos neste domingo, quando o Itamaraty convocou o embaixador argentino no Brasil para repudiar e exigir explicações sobre as agressões dirigidas pelo presidente argentino, Javier Milei, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a outras autoridades brasileiras. A medida ocorreu dias após Brasília ter convocado para consultas seu embaixador em Buenos Aires, Julio Bitelli, em razão de declarações proferidas por Milei na véspera, durante a convenção do Partido Liberal (PL) em São Paulo, na qual foi oficializada a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) às eleições de outubro.
Durante o evento, Milei não chegou a mencionar nominalmente Lula ou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, mas o chamou de “presidiário” e “ladrão”, além de se referir a Moraes como “lixo careca”. A partir da primeira ação brasileira, Milei elevou o tom ao acusar, neste domingo, o “governo do Brasil” de financiar uma suposta “campanha anti-Argentina”, sem apresentar provas.
Em resposta, Brasília convocou o embaixador argentino, Daniel Raimondi, para transmitir a repulsa do Governo brasileiro aos impropérios proferidos por Milei durante o evento em São Paulo e cobrar explicações sobre o comportamento do mandatário argentino. O comunicado oficial destacou que “não há precedente” para um episódio tão infamante, no qual “um presidente estrangeiro, em território nacional, envia agressões e ofensas ao Chefe de Estado” e a outras instituições democráticas.
Conjuntura política e desdobramentos
Milei, figura da direita latino-americana, esteve no evento no sábado (25) ao lado de seu aliado Flávio Bolsonaro (PL), cuja candidatura foi anunciada naquela convenção para as eleições de outubro, com Milei sinalizando a necessidade de enfrentar o que chamou de risco Lula e defender que o Brasil se afaste de uma condição de “submissão ao esquerdista”.
No domingo (26), Milei retornou às críticas ao Brasil ao afirmar que “quem pôs mais dinheiro nesta campanha anti-Argentina… O governo do Brasil. Vinte e cinco por cento dos recursos vindos do governo do Brasil”, referindo-se a mensagens críticas nas redes sociais durante a Copa do Mundo de futebol. O presidente argentino ainda afirmou que a campanha também teria sido financiada por outras “cabeças progressistas” do México e do Partido Democrata dos Estados Unidos.
Segundo Milei, “um grupo de brasileiros mandado por Lula” teria atuado ativamente contra ele durante a campanha que o conduziu à Presidência em 2023. Ele também alegou que Moraes impediu a visita ao seu “amigo preso injustamente” Jair Bolsonaro, preso em Brasília sob acusações relacionadas ao golpe de Estado de 2022. Moraes negou a autorização para a visita a Bolsonaro, o que intensificou a tensão entre os Poderes.
Reações institucionais e contexto geopolítico
O presidente do STF, Edson Fachin, manifestou repúdio às declarações de Milei, criticando a “referência desrespeitosa” a Moraes e condenando as manifestações como incompatíveis com a civilidade necessária nas relações entre Estados. Já Lula, em ato com sindicalistas neste domingo, reiterou que continuará governando “sem ingerência de ninguém” e afirmou que “aqui no Brasil a gente não aceita que ninguém meta o nariz onde não é chamado”, sem detalhar incidentes específicos.
Desde 2025, Lula mantém uma relação marcada por oscilações com o governo norte-americano, em meio a uma relação conturbada com Donald Trump, com Washington impondo tarifas e avaliações interpretadas pelo Brasil como tentativas de interference política. A dinâmica entre Milei e Moraes tem sido particularmente tensa, com Moraes sendo apontado como opositor do bolsonarismo; Milei chegou a sustentar que o ministro do STF impediu a visita a Bolsonaro.
A pauta institucional também envolve a relação de Lula com Milei desde a posse do argentino, em 2023. Embora tenham se cruzado em fóruns multilaterais, nenhum encontro bilateral ocorreu entre eles. Na última viagem de Lula à Argentina, em 2025, o presidente visitou Cristina Fernández de Kirchner, ex-presidente e atual opositora, que se encontra em prisão domiciliar por corrupção, uma figura de peso da oposição. As informações são fornecidas com base na cobertura de agências internacionais, incluindo a AFP.
Com informações de AFP.







