Um grupo de cães-selvagens africanos (Lycaon pictus) realizou uma jornada inédita de aproximadamente 4 mil quilômetros pela Zâmbia, estabelecendo um recorde entre mamíferos terrestres do continente em termos de deslocamento durante a busca por parceiros reprodutivos. A trajetória, que durou cerca de nove meses, foi documentada por pesquisadores por meio de coleiras de monitoramento e divulgada em estudo publicado em 14 de setembro de 2026 na revista científica Ecology.
O deslocamento começou em julho de 2025, a partir do Parque Nacional de Kafue, uma das principais áreas de conservação do país, localizada na região central da Zâmbia. O grupo era composto por sete cães-selvagens, incluindo quatro fêmeas e três machos, todos da mesma família, que inicialmente se dividiram em dois grupos distintos. Enquanto as irmãs permaneceram em uma área de manejo de vida selvagem próxima ao parque, os irmãos seguiram em direção ao leste, rumo ao interior do país. Em setembro de 2025, os três machos se reencontraram a mais de 965 quilômetros do ponto de partida, embora esse encontro tenha durado apenas um dia antes de os animais retornarem às suas rotas distintas.
A jornada revela aspectos importantes do comportamento social e reprodutivo da espécie, que vive em matilhas altamente sociais, nas quais os integrantes colaboram na criação dos filhotes. O acasalamento costuma ocorrer entre um macho e uma fêmea dominantes, enquanto os demais membros podem permanecer na matilha ajudando na criação ou buscar outros parceiros. Segundo Scott Creel, principal autor do estudo e pesquisador da Universidade Estadual de Montana, esse comportamento impulsiona deslocamentos extensos na busca por oportunidades de reprodução, transformando a busca por parceiras em uma verdadeira odisseia.
Entretanto, a longa viagem também expõe os cães-selvagens a diversos riscos. Os pesquisadores acreditam que várias das fêmeas do grupo podem ter sido vítimas de armadilhas ilegais usadas na caça de animais silvestres. Em outubro de 2025, as coleiras indicaram deslocamentos incomuns em uma região próxima à cidade de Kabwe, sugerindo que uma das fêmeas pode ter ficado presa em uma armadilha de arame. Posteriormente, outra cadela monitorada também apresentou sinais de captura, com sua coleira deixando de transmitir dados após alguns dias. Essas ocorrências evidenciam uma das principais ameaças enfrentadas pela espécie atualmente, que inclui atividades humanas ilegais, perda de habitat, doenças infecciosas e conflitos com comunidades humanas.
Apesar dos perigos, os três machos continuaram sua jornada, percorrendo uma distância total de aproximadamente 4 mil quilômetros. Em linha reta, essa distância equivaleria a cerca de 418 quilômetros, mas os desvios e zigue-zagues realizados pelos animais fizeram com que o percurso total fosse quase dez vezes maior, demonstrando a complexidade e a persistência da busca por parceiros. A trajetória também revelou informações sobre a conectividade entre áreas de conservação na região, reforçando a importância de manter corredores ecológicos que possibilitem o deslocamento de espécies ameaçadas.
Segundo Matt Becker, diretor executivo do Programa de Carnívoros da Zâmbia, a movimentação dos cães-selvagens demonstra que ainda existem conexões naturais entre os principais refúgios de vida selvagem do continente africano. Para ele, proteger essas rotas é tão relevante quanto a conservação de áreas isoladas, pois a manutenção de paisagens contínuas é fundamental para a sobrevivência de espécies ameaçadas. Nyambe Nyambe, do secretariado da área transfronteiriça Kavango-Zambezi, destacou que o fortalecimento dessas conexões entre parques nacionais, áreas comunitárias e regiões fronteiriças é essencial para garantir a preservação de espécies como o cão-selvagem, cuja população na natureza é estimada em cerca de 6 mil indivíduos, de acordo com o Fundo Africano para a Conservação da Vida Selvagem.
A pesquisa reforça que a preservação de corredores ecológicos e de conexões naturais entre áreas de habitat é vital para a sobrevivência de espécies ameaçadas na África. Os milhares de quilômetros percorridos pelos cães-selvagens africanos evidenciam que sua capacidade de deslocamento depende da existência de vastas paisagens contínuas, capazes de facilitar o movimento entre diferentes regiões de habitat. Assim, a trajetória desses animais não apenas estabeleceu um recorde de deslocamento, mas também destacou a importância de estratégias de conservação que priorizem a conectividade entre áreas protegidas, essenciais para a manutenção da biodiversidade e o equilíbrio ecológico na região.








