Pesquisas recentes indicam que vasos produzidos há aproximadamente 3.600 anos podem constituir um dos primeiros exemplos de “branding” na história da humanidade, muito antes do surgimento de logotipos, embalagens ou campanhas publicitárias. O estudo, publicado em 19 de agosto na revista científica PLOS One, analisou cerâmicas encontradas no oásis de Qurayyah, localizado no noroeste do território atualmente pertencente à Arábia Saudita, revelando características que sugerem uma espécie de identidade de marca na produção de objetos antigos.
As peças, conhecidas como Cerâmica Pintada de Qurayyah, apresentavam elementos que, segundo os pesquisadores, indicam uma identidade visual reconhecível, métodos de fabricação padronizados, uma origem bem estabelecida e uma circulação que alcançava outras regiões, além de uma reputação consolidada entre os compradores da época. Para a pesquisadora Marta Luciani, da Universidade de Viena, embora essa “marca” fosse desenvolvida em um mundo pré-capitalista, ela possuía aspectos semelhantes aos conceitos modernos de marca, como a consistência na produção e reconhecimento visual, ainda que sem campanhas publicitárias ou estratégias de marketing.
A pesquisa também contribui para esclarecer a origem das cerâmicas, que por muito tempo foram denominadas “cerâmica midianita”, uma classificação que as associava a uma região mais ampla. No entanto, as análises realizadas em exemplares encontrados em Qurayyah indicam que os vasos eram produzidos localmente, no próprio oásis. Amostras de sítios arqueológicos na Jordânia, incluindo Tell el-Kheleifeh e Pella, também foram estudadas, ajudando a confirmar que a origem da cerâmica era realmente da região de Qurayyah.
Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores examinaram dezenas de fragmentos de cerâmica encontrados em diferentes camadas arqueológicas, analisando detalhes de moldagem, queima e composição mineral da argila. Amostras finas foram observadas ao microscópio de luz polarizada, além de testes químicos que identificaram elementos presentes na composição dos vasos. Os resultados apontam para uma cadeia de produção local, com matérias-primas disponíveis na região e técnicas desenvolvidas na própria Qurayyah. Apesar de apresentarem semelhanças com cerâmicas de outras áreas do Mediterrâneo Oriental e da Arábia, não há evidências de que as peças fossem cópias de outros estilos, indicando uma produção autônoma e original.
Cerca de quatro séculos após o início da fabricação, surgiu uma versão mais padronizada, conhecida como QPW 4, que apresentava uma decoração em duas cores e era produzida em grande escala. Essas cerâmicas, que possuíam uma identidade visual reconhecível, eram transportadas por centenas de quilômetros até assentamentos e locais rituais distantes de Qurayyah, incluindo sítios na Jordânia como Tell el-Kheleifeh e o santuário de Timna, no sul do Levante. Essa circulação demonstra uma rede de comércio e troca que consolidou a reputação dos vasos, reforçando sua associação com a origem no oásis.
Segundo os pesquisadores, embora essa produção tenha começado como uma iniciativa local para criar um produto diferenciado em um ambiente desértico, a continuidade e expansão do comércio ao longo de gerações acabaram fortalecendo a identidade dos vasos e sua ligação com Qurayyah. A tradição cerâmica permaneceu ativa por mais de um milênio, chegando até o século IV a.C., durante a Idade do Ferro, o que evidencia a durabilidade dessa expressão cultural e comercial.
Assim, o estudo revela uma forma antiga de branding, baseada na aparência distinta, na produção padronizada, na origem conhecida e na circulação ampla dos vasos, que contribuíram para transformar esses objetos em mercadorias reconhecíveis e valorizadas no comércio da Idade do Bronze. Essa descoberta amplia a compreensão sobre as estratégias de diferenciação e reconhecimento de produtos na antiguidade, mostrando que conceitos semelhantes aos de marca podem ter raízes muito remotas na história humana.








