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Home Ciência

Cientistas identificam crustáceos vivendo sobre cobras marinhas em estudo pioneiro

12/09/2026
Em Ciência
Tempo de leitura:3 minutos de leitura
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Pesquisadores descobriram, pela primeira vez, que pequenos crustáceos do gênero Grapsidae podem viver sobre cobras marinhas, uma associação inusitada que ocorre em alto-mar. A revelação foi publicada em 31 de maio na revista científica Ecology and Evolution e resulta de uma pesquisa iniciada em 2012 durante uma expedição na costa da Costa Rica, liderada pelo herpetólogo marinho Joseph Pfaller, da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos.

Na ocasião, Pfaller participava de um estudo sobre as cobras marinhas-de-barriga-amarela (Hydrophis platurus), quando observou um fenômeno inédito: um pequeno caranguejo caiu do corpo de uma dessas serpentes. A partir dessa primeira descoberta, o pesquisador passou a dedicar atenção especial aos organismos que se alojavam nesses répteis, conhecidos como epibiontes, que normalmente vivem sobre tartarugas marinhas ou outros animais aquáticos. Entre esses epibiontes, estavam caranguejos do gênero Planes, que habitam espaços protegidos entre a cauda e a parte posterior do casco de tartarugas, mas, até então, não haviam sido documentados vivendo sobre cobras marinhas.

Ao longo da expedição, foram coletadas 371 cobras, algumas carregando não apenas crustáceos, mas também camarões, caracóis e até um pequeno peixe-ventosa. O destaque da pesquisa é que, até então, animais com patas, como crustáceos, não haviam sido registrados vivendo sobre cobras marinhas, o que reforça a singularidade da descoberta.

Após quase uma década, o projeto foi retomado quando Pfaller, em conversa com o especialista em caranguejos Robert Lasley, que na época atuava como pós-doutorando no Museu de História Natural da Flórida, decidiu analisar o DNA dos exemplares coletados em 2012. Como Pfaller havia encontrado um jovem caranguejo do gênero Planes em uma das cobras, a expectativa era que alguns das megalopas (fase de desenvolvimento entre a larva e o adulto) também pertencessem a esse grupo. No entanto, os resultados surpreenderam os pesquisadores: nenhuma das megalopas identificadas era do gênero Planes.

As análises genéticas revelaram que as caranguejos pertenciam a três espécies diferentes da família Grapsidae: Grapsus grapsus, que na fase adulta vive sobre e ao redor de rochas na zona costeira; Goniopsis pulchra, associada a ambientes de manguezais; e Pachygrapsus socius, que habita diversos ambientes entre as linhas de maré alta e baixa. Essa diversidade levantou uma questão importante: por que esses crustáceos, que normalmente vivem próximos à costa na fase adulta, estavam presos às cobras marinhas em mar aberto?

A explicação está relacionada ao ciclo de vida dos próprios caranguejos. A maioria dessas espécies, incluindo algumas que vivem em ambientes terrestres, libera suas larvas na água, onde passam pela fase de megalopa. Nesse estágio, os crustáceos têm maior capacidade de nadar, mas também são adaptados para escalar e se fixar em superfícies flutuantes, sendo transportados por correntes oceânicas em direção à costa. A possibilidade de se agarrar a objetos flutuantes aumenta as chances de alcançar ambientes costeiros, onde completar seu ciclo de vida é mais viável.

As áreas frequentadas pelas cobras marinhas, especialmente aquelas onde há convergência de correntes e acúmulo de objetos flutuantes, representam pontos comuns de encontro para esses crustáceos e os répteis. Segundo Pfaller, é provável que os caranguejos saiam do plâncton, se fixem em algum objeto e aguardem ser levados até a costa ou serem deslocados por correntes, o que pode incluir a chance de serem carregados por cobras marinhas que transitam por essas regiões. Essas serpentes, por sua vez, costumam evitar áreas próximas à costa, o que limita a probabilidade de os crustáceos completarem seu ciclo de vida após a associação.

A pesquisa também levantou a questão do motivo pelo qual apenas crustáceos do gênero Grapsidae foram encontrados vivendo sobre as cobras marinhas. Embora diversas famílias de caranguejos habitem o litoral da Costa Rica, todas as megalopas coletadas pertenciam a essa família específica. Uma hipótese é que a tendência de subir em objetos flutuantes seja mais pronunciada nesse grupo, que também inclui os caranguejos Planes, conhecidos por viverem sobre tartarugas. Contudo, as cobras marinhas não oferecem o mesmo ambiente propício às tartarugas, pois não possuem espaços protegidos ou cascos que possam servir de abrigo ou suporte para o crescimento de organismos como algas ou outros epibiontes. Além disso, as cobras trocam periodicamente de pele, o que dificulta a formação de uma relação de longa duração com esses crustáceos.

Os autores do estudo sugerem que a evolução da tendência de alguns crustáceos de se deslocar na superfície do oceano e de se fixar em objetos flutuantes pode ter contribuído para que, ao longo do tempo, certas espécies, como os Planes, passassem a viver sobre animais como tartarugas, e, eventualmente, sobre cobras marinhas. A descoberta amplia o entendimento sobre as interações entre espécies marinhas e revela uma nova faceta da complexidade dos ecossistemas oceânicos, destacando a importância de estudos que investigam relações ecológicas pouco convencionais em ambientes de alto-mar.

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