Pesquisadores na Espanha desenvolveram um novo colírio experimental capaz de restaurar a visão em ratos com degeneração da retina, um avanço que pode abrir caminho para tratamentos não invasivos de doenças degenerativas oculares. Os resultados, publicados em julho no Journal of the American Chemical Society, demonstraram que a aplicação do tratamento, que utiliza pequenas moléculas ativadas pela luz, conseguiu recuperar a capacidade visual de animais com condições similares às doenças humanas, como degeneração macular relacionada à idade (DMRI) e retinose pigmentar. O procedimento não envolve terapia gênica nem implantes, podendo, em um futuro próximo, ser administrado de forma tópica, como um colírio.
Estratégia inovadora baseada na fotofarmacologia
A técnica desenvolvida se apoia na fotofarmacologia, área que estuda medicamentos cuja atividade pode ser controlada por estímulos luminosos. Em doenças degenerativas da retina, os fotorreceptores — células responsáveis por detectar a luz — morrem progressivamente, deixando o circuito nervoso abaixo dessas células incapaz de transmitir sinais visuais ao cérebro. O tratamento busca reativar esse circuito remanescente, que permanece funcional mesmo após a perda dos fotorreceptores, ao usar moléculas que funcionam como uma espécie de “prótese molecular”.
A equipe de pesquisa criou uma família de moléculas chamadas prosthe6, capazes de atingir os neurônios bipolares ON, que normalmente recebem sinais dos fotorreceptores. Segundo Pau Gorostiza, líder do estudo e pesquisador na Instituição Catalã de Pesquisa e Estudos Avançados (ICREA), essas moléculas não atuam na causa da degeneração, mas são eficazes na restauração da visão ao estimular o circuito visual remanescente. Quando expostas à luz, as moléculas mudam de estrutura, desencadeando sinais na retina que substituem parcialmente a função dos fotorreceptores perdidos.
Rosalba Sortino, pós-doutora no Instituto de Bioengenharia da Catalunha (IBEC) e coautora do estudo, explica que o objetivo foi criar uma solução que se assemelhasse ao funcionamento natural da retina saudável. Em vez de contornar o processamento retiniano, o método busca reativar o circuito exatamente na mesma camada onde os fotorreceptores foram destruídos, promovendo uma resposta mais natural ao estímulo luminoso.
Resultados promissores em modelos animais
Os testes iniciais foram realizados em larvas de peixe-zebra com deficiência visual, onde as moléculas restauraram movimentos sacádicos dos olhos, um reflexo ligado à percepção visual. Posteriormente, a pesquisa avançou para estudos em ratos com modelos de DMRI e retinose pigmentar. Um dos comportamentos avaliados foi a preferência natural dos animais por ambientes escuros, um padrão comum em ratos saudáveis que evitam áreas iluminadas. Os ratos com degeneração retinal, que haviam perdido essa preferência, passaram a escolher ambientes escuros após o tratamento com o colírio contendo as moléculas prosthe6, indicando que conseguiram perceber diferenças de luminosidade e usar essa informação para orientar seu comportamento, sem necessidade de treinamento prévio.
Duas versões das moléculas, prosthe6-12 e prosthe6-15, mostraram resultados especialmente encorajadores. Os efeitos foram observados tanto após injeções intraoculares quanto com aplicação tópica na forma de colírio, o que reforça a possibilidade de uso não invasivo. Além disso, a ativação do tratamento não requer luz de alta intensidade, sendo suficiente a luz presente em ambientes internos ou ao ar livre em dias nublados, o que facilita a viabilidade do método em condições cotidianas.
Perspectivas e limitações futuras
Apesar dos avanços, o colírio ainda está longe de ser uma solução disponível para uso humano. Os testes até agora foram realizados em animais, e os pesquisadores ressaltam a necessidade de avaliar aspectos como segurança, duração do efeito e formulação do produto antes de iniciar ensaios clínicos em humanos. A equipe trabalha na otimização da resposta visual e na prolongação de seus efeitos, além de desenvolver uma formulação mais eficiente. A tecnologia já foi patenteada e está sendo desenvolvida em parceria com a empresa em formação Eyelumina.
Segundo Gorostiza, a implementação de uma terapia baseada nesta tecnologia é um processo que exige tempo e esforço, mas os resultados atuais indicam uma possibilidade realista de restaurar a visão de alta qualidade com medicamentos, de forma não invasiva e reversível. O mecanismo atua de modo independente da causa específica da degeneração ou de mutações genéticas, o que poderia beneficiar uma ampla parcela de pacientes com doenças retinianas degenerativas. Ainda assim, a aplicação clínica em humanos permanece como uma etapa futura, aguardando validações adicionais para garantir sua segurança e eficácia.







