Em junho de 2025, uma expedição científica realizada na região de Patos, no território indígena Manchineri, no estado do Acre, resultou na descoberta de um fóssil de proporções inéditas na paleontologia da Amazônia. A equipe, composta por 16 pesquisadores, estudantes e barqueiros da Reserva Extrativista Chico Mendes, percorreu o difícil acesso ao local após uma jornada de sete horas de navegação pelo rio Acre, enfrentando o isolamento geográfico e as condições adversas da estação seca na região.
A região de Patos, situada na Terra Indígena Cabeceira do Rio Acre, na fronteira entre Brasil e Peru, possui grande relevância para o entendimento do passado paleontológico da Amazônia Ocidental. Desde o final da década de 1970, quando pesquisadores estadunidenses iniciaram levantamentos geológicos e paleontológicos na área, o local tem despertado interesse científico. Nos anos 1990 e 2000, a continuidade das investigações por paleontólogos da Universidade Federal do Acre (UFAC) consolidou a importância do sítio, que hoje é considerado um dos mais relevantes da região.
A dificuldade de acesso à região, agravada pelo baixo nível do rio durante o período de estiagem, torna as expedições raras e desafiadoras. O deslocamento muitas vezes exige abandonar o barco e empurrá-lo por bancos de areia e galhos acumulados nas margens, além do risco de pisar em arraias. Essa dinâmica natural explica o intervalo de anos ou até décadas entre uma expedição e outra, uma vez que o ritmo hidrológico da Amazônia regula o momento de entrada dos pesquisadores no sítio.
Durante a última expedição, a equipe se deparou com uma descoberta surpreendente: um casco fossilizado de tartaruga de grandes proporções, parcialmente exposto nas rochas. A sensação de perplexidade tomou conta dos paleontólogos diante do tamanho do fóssil, que se revelou ser o maior já encontrado na região. O casco mede mais de 1,6 metro de diâmetro, e estimativas preliminares indicam que o animal completo poderia atingir aproximadamente 2 metros de comprimento, semelhante a registros encontrados na Venezuela em 2020, que até então representavam o maior exemplar conhecido.
O fóssil foi identificado como pertencente à espécie Stupendemys geographicus, considerada a maior tartaruga de água doce já registrada na história do planeta. Essa espécie viveu há cerca de 10,8 milhões a 8,5 milhões de anos, durante o Mioceno, período geológico que marca importantes fases de evolução na história da Terra. Trata-se do fóssil mais completo de uma tartaruga gigante já encontrado no Brasil, incluindo fragmentos da carapaça, ossos da cintura pélvica, parte de um fêmur e outros ossos das pernas.
A equipe de paleontólogos realizou uma coleta cuidadosa do fóssil, improvisando uma base de madeira para facilitar o transporte, uma vez que os equipamentos tradicionais de coleta de fósseis de grande porte não estavam disponíveis na expedição. A descoberta representa um avanço significativo para o conhecimento da biodiversidade do passado amazônico, que até então era conhecido principalmente por fósseis de tamanho pequeno ou médio, como dentes, fragmentos ósseos de mamíferos extintos e restos de pequenos répteis.
Durante o trabalho de campo, a equipe também enfrentou o desafio de divulgar a descoberta. Pela primeira vez, a equipe conseguiu acesso à internet na região, e uma reportagem de um jornal regional foi vazada, revelando a descoberta do fóssil de uma tartaruga de aproximadamente 13 milhões de anos. A imagem do fóssil e a notícia viralizaram rapidamente, gerando grande impacto na mídia local e nacional. Os barqueiros envolvidos na coleta, que estavam presentes na imagem, demonstraram entusiasmo por terem contribuído para uma descoberta que promete ampliar o entendimento sobre a biodiversidade do passado da Amazônia.
A descoberta do fóssil de Stupendemys geographicus no Acre não apenas reforça a importância do sítio de Patos para a paleontologia, mas também revela um capítulo ainda pouco explorado da história geológica da região. Com apenas quatro dias de trabalho na expedição, os pesquisadores conseguiram coletar fragmentos que podem reescrever parte da narrativa evolutiva dos grandes répteis aquáticos que habitaram a antiga Amazônia, contribuindo para o entendimento da biodiversidade que precedeu a atual floresta tropical.






