Uma pesquisa recente revelou uma alta incidência de alterações estruturais internas em peixes coletados na costa do Espírito Santo, apontando possíveis ligações com o desastre ambiental de Mariana, ocorrido em 2015. O estudo, publicado na revista científica Ocean and Coastal Research em 7 de agosto, analisou exemplares da espécie Stellifer naso, comum na costa brasileira, especificamente na foz do Rio São Mateus, localizada entre os municípios de Conceição da Barra e São Mateus, no estado do Espírito Santo.
A pesquisa avaliou 38 otólitos, pequenas estruturas calcificadas situadas no ouvido interno dos peixes responsáveis pelo equilíbrio e percepção do ambiente. Essas estruturas são sensíveis às condições ambientais e ao estado fisiológico dos animais, tornando-se indicadores eficazes de estresse ambiental. Dos otólitos examinados, 23 apresentaram alterações de diferentes tamanhos e níveis de complexidade, o que corresponde a uma taxa de 60,5%, a maior já registrada em estudos sobre peixes costeiros no Brasil. Entre as principais anomalias identificadas, destacam-se projeções anormais na superfície dos otólitos e, em um caso, uma malformação na região do sulcus acusticus, uma área importante na estrutura do otólito. Além disso, os otólitos alterados exibiram maior variação de formato em comparação aos considerados normais.
O contexto do estudo remonta ao rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais, ocorrido em novembro de 2015, que resultou na liberação de rejeitos de mineração na Bacia do Rio Doce. Esse desastre causou uma das maiores tragédias ambientais do Brasil, com o material contaminante percorrendo a bacia hidrográfica até alcançar o oceano Atlântico, afetando ecossistemas e populações locais. Pesquisas anteriores já haviam detectado contaminação por ferro e bioacumulação de metais pesados em peixes da região, além de a espécie estudada ser comum em ambientes estuarinos e próximos ao fundo de sedimentos, fatores que aumentam a exposição a poluentes remobilizados.
Os autores do estudo sugerem que os rejeitos transportados pelo Rio Doce representam o principal fator ambiental responsável pelas anomalias observadas nos peixes. A presença de metais pesados, como ferro, e outros contaminantes, poderia explicar as alterações estruturais nos otólitos, mesmo mais de seis anos após o desastre. Contudo, o estudo não estabelece uma relação definitiva de causalidade, ressaltando que outros fatores, como temperatura, salinidade, condições fisiológicas e fatores genéticos, também podem influenciar na formação dessas estruturas.
Os pesquisadores destacam ainda que a ausência de processos oceânicos intensos, como ressurgências, na região analisada reforça a hipótese de que o rompimento da barragem de Mariana foi o principal evento a influenciar as mudanças ambientais observadas. Para esclarecer completamente a origem das anomalias e determinar o grau de impacto do desastre, serão necessárias análises adicionais da composição química e da estrutura dos otólitos. Essas próximas etapas são essenciais para compreender o impacto de longo prazo do desastre de Mariana na saúde ambiental dos ecossistemas costeiros do Espírito Santo.








