Uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), nos Estados Unidos, revelou um efeito inesperado da cannabis sobre o sistema cardiovascular de usuários frequentes. O estudo, publicado em 12 de agosto na revista Journal of the American College of Cardiology, constatou que, nos dias em que os participantes inalaram maconha, houve uma redução de aproximadamente 9% na incidência de batimentos cardíacos prematuros, em comparação aos dias de abstinência. Essa descoberta surpreendeu os autores, pois contrariou a hipótese inicial de que a substância poderia aumentar esses episódios.
A pesquisa buscou compreender os efeitos agudos da inalação de cannabis em indivíduos que já fazem uso regular da substância, sem investigar possíveis consequências a longo prazo para a saúde cardiovascular. Segundo Gregory Marcus, professor da UCSF e um dos responsáveis pelo estudo, os resultados desafiam expectativas e reforçam a necessidade de estudos mais rigorosos, como os ensaios clínicos randomizados, para compreender os mecanismos envolvidos.
A investigação envolveu 108 adultos que consumiam cannabis por fumar ou vaporização de forma habitual, sem histórico de arritmias cardíacas diagnosticadas. Durante 14 dias, os participantes foram aleatoriamente designados a consumir a substância ou permanecer em abstinência, com monitoramento contínuo por eletrocardiograma, além de dispositivos para rastrear atividades, sono e níveis de glicose. Essa abordagem permitiu uma comparação direta dos efeitos do consumo em diferentes dias, com cada participante atuando como seu próprio controle, o que aumentou a precisão dos resultados.
A principal alteração detectada ocorreu na redução de batimentos cardíacos prematuros, também conhecidos como ectopia cardíaca, que são batimentos que ocorrem antes do esperado e podem origem em diferentes regiões do coração. Especificamente, a diminuição ocorreu principalmente nas contrações atriais prematuras (CAPs), que se iniciam nas câmaras superiores do coração. Essas contrações são relevantes porque representam um dos maiores fatores preditores de fibrilação atrial, uma arritmia que aumenta o risco de eventos cerebrovasculares. Por outro lado, as contrações ventriculares prematuras (CVPs), que se originam nas câmaras inferiores, não apresentaram alterações significativas na quantidade diária após o uso de cannabis.
Embora os batimentos prematuros sejam relativamente comuns na população geral, os pesquisadores destacam que ainda há pouco entendimento sobre os fatores que influenciam sua frequência. Assim, a descoberta de uma redução nesses episódios após o consumo de cannabis pode abrir caminhos para estudos futuros que investiguem os mecanismos biológicos envolvidos nesses ritmos cardíacos.
Além dos efeitos sobre os batimentos, o estudo também avaliou outros aspectos fisiológicos, como quantidade de passos diários, duração do sono e níveis de glicose no sangue. Nenhuma diferença significativa foi observada entre os dias de uso e de abstinência nesses parâmetros, indicando que o consumo de cannabis, sob as condições do estudo, não impactou de forma notável esses aspectos da saúde dos participantes.
Gregory Marcus reforça que, apesar do resultado indicar uma possível redução nos batimentos prematuros, os efeitos gerais da cannabis na saúde ainda podem ser negativos. No entanto, ele destaca que a descoberta pode contribuir para uma compreensão mais aprofundada dos mecanismos que produzem contrações atriais prematuras, potencialmente auxiliando no desenvolvimento de novas estratégias para prevenir ou tratar ritmos cardíacos anormais.
Por ora, os autores alertam que os resultados não devem ser utilizados como base para recomendações médicas ou comportamentais relacionadas ao consumo de cannabis, pois ainda há necessidade de estudos adicionais para esclarecer os efeitos de longo prazo e as implicações clínicas dessa substância no sistema cardiovascular.







