A cidade de Barcelona, na Espanha, iniciou uma estratégia inovadora de controle do mosquito-tigre-asiático (Aedes albopictus), vetor de doenças como dengue e chikungunya, ao liberar mais de 1,5 milhão de mosquitos machos portadores da bactéria Wolbachia. A ação, coordenada pela Agência de Saúde Pública de Barcelona (ASPB) em parceria com empresas especializadas, visa reduzir a população de insetos por meio de uma técnica que impede a reprodução dos mosquitos. A iniciativa prevê a soltura semanal de aproximadamente 80 mil machos modificados, configurando uma experiência pioneira na escala urbana na Europa.
A estratégia consiste na liberação de machos infectados com Wolbachia, uma bactéria que ocorre naturalmente em diversos insetos. Esses machos, criados em laboratório, são selecionados por meio de sistemas automatizados de reconhecimento de imagens com inteligência artificial, de modo a evitar a soltura de fêmeas férteis, o que poderia comprometer a eficácia do método. Quando esses machos acasalam com fêmeas que não carregam a mesma cepa da bactéria, os ovos produzidos não eclodem, interrompendo o ciclo reprodutivo do mosquito. Essa técnica, conhecida como “incompatibilidade induzida”, busca reduzir gradualmente a população local de Aedes albopictus, complementando as ações tradicionais de controle de criadouros e uso de inseticidas.
A expansão do mosquito-tigre na Europa representa um desafio crescente para a saúde pública, uma vez que a espécie consegue se reproduzir em pequenos volumes de água acumulada em recipientes, lixo e objetos descartados, dificultando sua eliminação. Além disso, o aquecimento global tem potencial para ampliar a presença desses insetos em novas regiões, aumentando o risco de transmissão de doenças. Desde que foi detectado em pelo menos 16 países europeus, o mosquito tem se consolidado como uma ameaça emergente, impulsionada também por mudanças climáticas e urbanização descontrolada.
No Brasil, a utilização da bactéria Wolbachia já apresenta resultados expressivos no combate às doenças transmitidas pelo Aedes aegypti. Pesquisas conduzidas pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) demonstraram reduções de cerca de 70% nos casos de dengue, 60% em chikungunya e 40% em Zika, em cidades como Niterói (RJ) e Campo Grande (MS). O programa brasileiro, iniciado em 2012, já beneficiou aproximadamente 5 milhões de pessoas até 2025, com previsão de alcançar cerca de 70 milhões nos próximos anos. Para isso, há várias biofábricas no país, incluindo uma em Curitiba, que pode produzir até 100 milhões de ovos por semana, além de unidades em Campinas, Rio de Janeiro, Uberlândia, Ribeirão Preto e Ponta Grossa.
Recentemente, o Ministério da Saúde do Brasil anunciou que Campinas será palco de novos experimentos com Wolbachia, com previsão de início das liberações de insetos modificados em maio de 2027 e os primeiros impactos esperados a partir de 2028. Essas ações representam uma continuidade na estratégia de controle biológico, que busca reduzir a dependência de métodos tradicionais, como o uso de inseticidas, e oferecer uma alternativa sustentável e eficaz no combate às arboviroses.







