Um estudo recente realizado por pesquisadores da Universidade de Washington em St. Louis, nos Estados Unidos, revelou que a interrupção do uso de medicamentos agonistas de GLP-1, como Mounjaro e Ozempic, pode elevar significativamente o risco de eventos cardiovasculares graves. Esses medicamentos, originalmente destinados ao tratamento do diabetes tipo 2, têm sido cada vez mais utilizados devido aos seus efeitos na perda de peso. A pesquisa, divulgada nesta segunda-feira (21) na revista científica BMJ Medicine, indica que o risco de problemas cardíacos aumenta após apenas seis meses de suspensão do tratamento, com a incidência de eventos graves crescendo à medida que o tempo sem medicação avança.
O estudo acompanhou durante três anos cerca de 333 mil idosos americanos com diabetes tipo 2, com idade média de 65 anos. Desses, 132.551 receberam prescrição de agonistas de GLP-1, enquanto 201.136 foram tratados com sulfonilureias, outra classe de medicamentos para diabetes. Os resultados mostraram que a suspensão do tratamento com medicamentos como Mounjaro, após seis meses de uso, foi associada a um aumento expressivo no risco de complicações cardíacas. Quanto maior o período sem o uso do medicamento, maior foi esse risco: após dois anos, a chance de ataque cardíaco, acidente vascular cerebral ou morte era até 22% maior em comparação aos pacientes que continuaram o terapia.
Segundo Ziyad Al-Aly, epidemiologista clínico e autor do estudo, há um entusiasmo crescente pelo uso de medicamentos GLP-1, porém pouco se discute o que ocorre quando os pacientes interrompem o uso. Ele destaca que muitos desistem após alguns meses devido ao custo, efeitos colaterais ou escassez do medicamento. A interrupção não apenas causa o retorno do peso perdido, mas também um ressurgimento de inflamação, aumento da pressão arterial e do colesterol, além de uma reversão metabólica que prejudica a saúde cardiovascular.
O estudo também aponta que, em comparação com pacientes que utilizavam sulfonilureias, aqueles que mantiveram o tratamento com agonistas de GLP-1 apresentaram um risco 18% menor de eventos cardiovasculares graves ao longo de três anos, o que equivale a cerca de quatro eventos a menos por cada 100 pessoas nesse período. Os benefícios mais evidentes foram observados entre os participantes que usaram os medicamentos continuamente durante todo o período do estudo. Aqueles que interromperam após dois anos ou dois anos e meio tiveram reduções de risco de 7% e 15%, respectivamente, enquanto quem parou antes de 18 meses não apresentou melhora significativa em relação ao grupo de sulfonilureias.
Os dados também indicam que períodos mais longos sem o uso do medicamento resultam em perdas de proteção cardiovascular. Pessoas que interromperam o tratamento por um ano apresentaram risco 14% maior, e após dois anos, esse aumento chegou a 22%, em comparação com os usuários contínuos. Al-Aly reforça que essa oscilação metabólica causada pela interrupção é prejudicial ao coração, e que a retomada do tratamento, embora ajude a recuperar parte da proteção, não reverte completamente os efeitos negativos acumulados.
A pesquisa reforça a necessidade de estratégias de saúde que promovam a continuidade do uso de medicamentos de longo prazo, especialmente em doenças crônicas como o diabetes. Segundo os autores, é fundamental que os sistemas de saúde ofereçam suporte para gerenciar efeitos colaterais, reduzir custos e garantir a adesão ao tratamento, evitando que os pacientes interrompam os medicamentos e, assim, aumentem seu risco cardiovascular.
Embora os resultados reforcem os benefícios cardiovasculares do uso contínuo de medicamentos como Mounjaro e Ozempic, é importante destacar que o estudo foi conduzido com idosos com diabetes, o que demanda novas pesquisas para determinar se esses achados se aplicam também a indivíduos que utilizam esses medicamentos com fins de emagrecimento.








