Um vídeo que mostra um pescador tocando em um peixe elétrico, conhecido como poraquê, e sofrendo uma descarga elétrica, viralizou nas redes sociais, despertando atenção e debates sobre os riscos de manipular esses animais. A cena, registrada por Jardel Araújo, conhecido na internet pelo perfil @vidasemroteiros no Instagram, mostra o momento em que o pescador encosta a mão no peixe e reage imediatamente ao impacto causado pela descarga elétrica. Com mais de 116 mil curtidas até o momento, o vídeo evidencia uma das habilidades mais impressionantes desses peixes, que é a capacidade de gerar eletricidade a partir de seu próprio corpo.
Embora também sejam chamados de enguias-elétricas, os poraquês não pertencem à família das enguias verdadeiras. Esses peixes fazem parte do gênero Electrophorus, que inclui três espécies atualmente reconhecidas pela comunidade científica: Electrophorus electricus, Electrophorus varii e Electrophorus voltai. Eles habitam principalmente águas doces da América do Sul, podendo atingir cerca de 2,5 metros de comprimento e pesar mais de 20 quilos. Essas espécies possuem três órgãos elétricos especializados — o órgão principal, o órgão de Hunter e o órgão de Sachs — que ocupam aproximadamente 80% de seu corpo e são responsáveis pela produção de descargas de diferentes intensidades.
A origem da eletricidade nesses peixes está relacionada à estrutura de seus órgãos elétricos, formados por células modificadas chamadas eletrócitos, organizadas em sequência semelhante às células de uma bateria. Quando o sistema nervoso do peixe envia um comando, essas células são ativadas simultaneamente, gerando pequenas cargas elétricas. Sozinhas, essas cargas produzem pouca energia, mas, quando atuam em conjunto, suas voltagens se somam, formando uma descarga mais potente. Os poraquês podem gerar descargas de até 860 volts, o maior valor registrado entre as espécies conhecidas. Para comparação, essa tensão é quase oito vezes maior do que a de uma tomada doméstica padrão de 110 volts.
Apesar do potencial de descarga elevado, esses peixes não estão constantemente emitindo eletricidade de alta voltagem. Eles podem produzir pulsos mais fracos ou mais fortes conforme a necessidade, dependendo da situação. Estudos realizados em 2015 demonstram que esses animais têm a capacidade de ajustar a intensidade do choque de acordo com o tamanho e o nível de resistência de suas presas. Essa adaptação permite que o peixe utilize uma carga menor ao atingir pequenos ou já desacordados, enquanto, em casos de presas maiores, pode emitir pulsos mais fortes para incapacitar o alvo.
As descargas de menor intensidade funcionam como um sistema de localização, especialmente útil para os peixes em ambientes de águas escuras ou turvas, onde a visão é limitada. Esses pulsos elétricos ajudam na percepção do ambiente ao redor e na identificação de possíveis presas. Além disso, a eletricidade é empregada na comunicação entre os indivíduos da espécie. Já as descargas de alta voltagem são utilizadas principalmente na caça ou na defesa contra predadores. Quando uma presa é detectada, o poraquê pode emitir uma sequência rápida de pulsos que provoca contrações musculares involuntárias na vítima, dificultando sua fuga. Em situações de ameaça, o peixe também recorre à descarga elétrica para se defender, criando uma barreira contra possíveis predadores.
Para seres humanos, o contato com uma descarga de um poraquê pode causar dor intensa, contrações musculares involuntárias e perda temporária de controle dos movimentos, deixando braços e pernas rígidos ou “travados”. O risco aumenta quando a descarga ocorre dentro da água, pois a pessoa pode ter dificuldade para nadar após o choque, aumentando o perigo de afogamento. Por esse motivo, apesar da curiosidade despertada por vídeos como o do pescador, é fortemente recomendado evitar contato proposital com esses peixes elétricos. A manipulação inadequada pode representar riscos sérios à saúde e à integridade física, além de prejudicar a conservação dessas espécies, que desempenham papel importante em seus ecossistemas.








