Fotografias de baleias-francas-austrais capturadas durante observações na Península Valdés, na Patagônia argentina, têm se mostrado ferramentas essenciais para avanços na pesquisa científica sobre essas espécies. Essas imagens, muitas vezes feitas por guias de turismo ou observadores civis, possibilitam identificar individualmente os animais, determinar suas idades, relacionar filhotes às suas mães e até reconstruir genealogias que abrangem décadas, graças a um método conhecido como fotoidentificação.
A técnica baseia-se na análise dos padrões de calosidades na cabeça das baleias, que, assim como impressões digitais humanas, variam de um indivíduo para outro. Esses padrões, embora pareçam rugas ou protuberâncias, representam uma espécie de “impressão digital” que permite aos pesquisadores reconhecer uma baleia ao longo de sua vida. Desde 1970, o Southern Right Whale Research Program, em parceria com a Ocean Alliance, realiza levantamentos aéreos — inicialmente com aviões e, posteriormente, com drones — para identificar os cetáceos, registrar informações como sexo, condição física, presença de filhotes e idade estimada.
Esses dados contribuem para a formação de um arquivo detalhado, que acompanha a história de cada animal, incluindo nascimento, reprodução, sobrevivência e relações familiares. Contudo, as baleias recém-nascidas apresentam cabeças menores e padrões de calosidades ainda em desenvolvimento, dificultando sua identificação em fotografias aéreas. Para preencher essa lacuna, fotografias tiradas de perto por embarcações de turismo passaram a ser fundamentais, especialmente durante o primeiro ano de vida, quando os padrões ainda não estão totalmente formados.
Em 2016, o Instituto de Conservação de Ballenas (ICB) implementou uma iniciativa de ciência cidadã, incentivando guias e turistas a enviarem fotografias das baleias que observam. Desde então, mais de 460 mil imagens foram recebidas, permitindo a identificação de 278 animais até então não catalogados e de outros 122 já conhecidos, mas sem registros anteriores nos levantamentos aéreos. Essa colaboração tem sido crucial para ampliar o conhecimento sobre a população de baleias-francas-austrais na região.
Um exemplo dessa contribuição ocorreu em 2007, quando uma fotografia feita por um guia e fotógrafo, Stephen Johnson, revelou um filhote nadando ao lado da mãe. Anos depois, esse mesmo animal foi avistado em levantamentos aéreos de 2008 e 2016, permitindo determinar sua data de nascimento e estabelecer seu vínculo familiar com a fêmea identificada como A0645. Essa conexão possibilitou reconstruir parte de sua trajetória de vida, incluindo sua origem e evolução familiar.
Outro caso notório envolve uma baleia com coloração incomum, predominantemente branca com manchas pretas, conhecida como Espuma. Fotografada em 1994 durante um levantamento aéreo, sua pigmentação distinta dificultou a identificação na época. Em 1995, uma observação mais próxima revelou detalhes adicionais, consolidando sua identidade. Após desaparecer por 22 anos, Espuma foi reconhecida novamente em 2017, por meio de imagens de satélite, que confirmaram sua identidade e permitiram integrá-la a uma árvore genealógica que abrange cinco gerações de sua família, consolidando o valor das fotografias de longa data para estudos de linhagem e história de vida dessas baleias.
Esses exemplos demonstram como a combinação de técnicas tradicionais de fotoidentificação, apoio de observadores civis e avanços tecnológicos tem ampliado o entendimento sobre a vida e a história das baleias-francas-austrais, contribuindo para estratégias de conservação e manejo mais eficazes.









