A casa noturna Madame Satã, localizada na cidade de São Paulo, voltou ao centro das atenções nesta sexta-feira (11) após a revelação de que o empresário Daniel Vorcaro promoveu uma festa de Halloween no local, em 31 de outubro de 2023. Segundo informações divulgadas pela revista Piauí, o evento contou com a presença de aproximadamente 140 pessoas, incluindo cerca de 120 mulheres e 20 homens, além de autoridades dos poderes Executivo e Legislativo. A festa, que ocorreu em segredo, despertou interesse por parte das autoridades devido à articulação de convites envolvendo políticos e empresários, além da preocupação do próprio organizador em manter o evento sob sigilo.
A origem do nome da casa remete à figura de João Francisco dos Santos, conhecido como Madame Satã, uma das personalidades mais marcantes da cultura popular e da vida noturna brasileira do século XX. Nascido em 25 de fevereiro de 1900, na cidade de Glória do Goitá, em Pernambuco, João Francisco era um dos 17 irmãos de uma família de origem humilde. Sua infância e juventude são pouco documentadas, pois grande parte das informações disponíveis veio de entrevistas concedidas por ele na velhice, dificultando uma reconstrução detalhada de seus anos iniciais.
Segundo relatos do próprio Madame Satã, seu pai era filho de um senhor de engenho com uma mulher escravizada, enquanto sua mãe, descrita por ele como “uma cabocla muito bonita e muito analfabeta”, teria entregado o menino a um fazendeiro em troca de uma égua, quando tinha apenas oito anos. João Francisco permaneceu por cerca de seis meses em condições semelhantes à escravidão antes de fugir para o Rio de Janeiro, acompanhado pela proprietária de um hotel, na esperança de estudar. Contudo, ao chegar à capital federal, voltou a trabalhar em condições de exploração.
Durante a juventude, passou a viver de pequenos furtos pelas ruas da Lapa e exerceu diversas atividades informais, como vendedor ambulante, leão de chácara, garçom de bordel e cozinheiro de pensionato. Foi neste último emprego que conheceu a atriz Sarah Nobre, que se interessou por suas imitações de artistas como Carmen Miranda e Josephine Baker. Por indicação dela, conseguiu uma oportunidade como transformista em um teatro na Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro.
Em 1928, João Francisco estreou no teatro Casa de Caboclo, na Praça Tiradentes, interpretando a personagem Mulata do Balacochê, no espetáculo Loucos em Copacabana. Essa apresentação marcou o início de sua trajetória artística, que o consolidou na vida noturna carioca. Paralelamente à carreira artística, Madame Satã enfrentou diversos conflitos com a polícia, sendo preso várias vezes e passando cerca de 27 anos de sua vida em instituições prisionais. Entre os crimes pelos quais foi detido estão homicídio, agressão, furto, desacato, resistência à prisão, ultraje ao pudor e porte de arma.
Um episódio emblemático de sua história ocorreu após uma apresentação, quando João Francisco teria matado a tiros um policial que o havia agredido enquanto ele consumia em um bar na Lapa, no Rio de Janeiro. Em entrevista ao jornal O Globo, em 1972, o artista afirmou que o policial fardado só o levou para a cadeia desmaiado. Apesar da repressão constante, Madame Satã foi um dos primeiros a falar abertamente sobre sua homossexualidade, afirmando que “ser bicha era uma coisa que não tinha nada demais” e que “não deixava de ser homem por causa disso”.
O apelido Madame Satã surgiu em 1938, durante o Carnaval, após uma competição de fantasias promovida pelo bloco Caçadores de Veados, no Teatro República, na Avenida Gomes Freire, no Rio de Janeiro. Vestido com uma fantasia inspirada em um morcego, com capa, máscara e lantejoulas, João Francisco conquistou o primeiro lugar. O figurino foi associado à personagem de Kay Johnson no filme Madam Satan, de 1930, dirigido por Cecil B. DeMille. Desde então, adotou o nome artístico que o acompanhou até sua morte.
Nos anos seguintes, Madame Satã consolidou-se como uma figura notória na vida cultural carioca, participando de serenatas com nomes como Francisco Alves, além de manter contato com artistas como Cartola, Nelson Cavaquinho, Vicente Celestino, Heitor dos Prazeres e Aracy de Almeida. Após cumprir suas penas, mudou-se para a Ilha Grande, na Vila do Abraão, onde trabalhou como cozinheiro e adotou uma rotina mais discreta. Contudo, sua história voltou a ganhar destaque em 1971, após uma entrevista ao jornal O Pasquim, na qual revelou episódios de sua trajetória, atraindo novamente a atenção do público.
Em 1974, sua vida virou filme com o lançamento de “Rainha Diaba”, protagonizado por Milton Gonçalves, inspirado em sua história. Ainda antes de falecer, participou do musical “Lampião no Inferno”, ao lado de Elba Ramalho e Tania Alves, no Teatro Miguel Lemos, em Copacabana. Em 12 de abril de 1976, aos 76 anos, vítima de câncer, João Francisco dos Santos faleceu em Angra dos Reis, onde estava internado, e foi sepultado na Ilha Grande.
A figura de Madame Satã permaneceu viva na cultura brasileira por meio de livros, filmes, músicas, histórias em quadrinhos e peças de teatro. Seu nome também foi utilizado para batizar espaços ligados à vida noturna e à cena cultural do país. Em São Paulo, a casa noturna que leva seu nome foi inaugurada em 1983, inicialmente como restaurante cultural, e posteriormente transformada em uma casa de shows, tornando-se ponto de referência para artistas de diversos estilos, incluindo rock, punk, dark e new wave. Atualmente, o espaço, localizado na Rua Conselheiro Ramalho, no bairro Bela Vista, é gerido por Igor Calmona e Gé Rodrigues, mantendo sua tradição de promover cultura e diversidade.
Recentemente, o nome de Madame Satã voltou a ser mencionado em decorrência de uma festa de Halloween promovida por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, no espaço paulistano. O evento, realizado em outubro de 2023, contou com atrações de nomes como Swedish House Mafia, Solomun e Vintage Culture, além de uma presença expressiva de convidados considerados “suíças”, termo utilizado pelo empresário para se referir às mais de 100 jovens mulheres que participaram do evento. Segundo relatório da Polícia Federal, Vorcaro, atualmente preso na Superintendência da Polícia Federal em Brasília desde março de 2023, teria articulado convites para políticos e empresários, além de tentar manter a festa em sigilo. O empresário foi visto fantasiado de Drácula, com maquiagem de corte sanguento no peito, e sua preocupação com a presença das jovens demonstra a complexidade das investigações relacionadas ao evento, que despertou questionamentos sobre a legalidade e a conduta do organizador.








