Uma controvérsia envolvendo a plataforma de streaming Kick, concorrente da Twitch, ganhou destaque na última semana após a transmissão de um episódio de hostilidade dirigido ao ator João Victor Gonçalves por um streamer conhecido como GH. O incidente ocorreu durante uma transmissão ao vivo nas proximidades do Rock in Rio, evento realizado em setembro de 2026, e resultou na suspensão temporária da conta do streamer na plataforma.
Fundada em 2022, a Kick se posiciona como uma plataforma de streaming liderada por criadores de conteúdo, oferecendo uma variedade de transmissões, incluindo as chamadas “In Real Life” (IRL), onde os usuários exibem atividades cotidianas, viagens, passeios pela cidade e interações sociais. A plataforma tem se destacado por sua política de conteúdo mais permissiva e uma divisão de receita bastante favorável aos streamers, na qual 95% do valor arrecadado com assinaturas fica com o criador, enquanto a plataforma retém apenas 5%. Além das assinaturas, os usuários podem monetizar suas transmissões por meio de gorjetas, chamadas “KICKs”, publicidade, patrocínios e outros recursos.
O episódio envolvendo GH, de 19 anos, conhecido por suas transmissões IRL, ocorreu enquanto ele transmitia uma live nas proximidades do Rock in Rio. Durante a transmissão, GH zombou do visual do ator João Victor Gonçalves, que interpreta Mau Mau na novela “Quem Ama Cuida”, da TV Globo. GH comentou de forma depreciativa sobre as roupas do ator, usando expressões como “Caralho, fiel, o que é isso, fiel?”, além de outros jovens presentes na transmissão chamarem João de “horroroso”. O ator posteriormente declarou que sentiu medo de ser roubado e acusou GH de homofobia, enquanto o streamer afirmou que João Victor teria feito comentários racistas.
A repercussão do episódio foi rápida nas redes sociais, levando a Kick a tomar uma medida imediata: a desativação da conta de GH na plataforma. Até o momento da publicação desta matéria, o perfil do streamer permanece suspenso, conforme regras internas que proíbem condutas como “pegadinhas que incitam medo” e “assédio ou exploração de pessoas que não desejam participar de transmissões públicas”.
A suspensão da conta de GH reflete o esforço da plataforma em alinhar suas ações às suas próprias políticas de conduta, que visam coibir comportamentos considerados ofensivos ou prejudiciais. A Kick, criada por Ed Craven e Bijan Tehrani, empresários ligados ao setor de apostas e cassinos online, também permite transmissões relacionadas a jogos de azar, incluindo cassinos virtuais, roleta, blackjack e apostas esportivas, uma característica que tem gerado debates sobre a responsabilidade da plataforma na moderação de conteúdos sensíveis.
Especialistas em opinião pública, como Marcos José Zablonsky, destacam que a política de moderação mais permissiva da Kick atrai criadores que tiveram problemas em outras redes, principalmente por violações de conduta graves. Segundo Zablonsky, essa estratégia pode transformar transgressões em estratégias de aumento de audiência, onde a busca por visibilidade leva à normalização de comportamentos polêmicos, que geram atenção, audiência e, consequentemente, receita.
Casos anteriores reforçam essa preocupação. Em agosto de 2025, a Kick também foi alvo de críticas após banir criadores envolvidos na transmissão que antecedeu a morte do influenciador francês Raphaël Graven, conhecido como JP, que morreu durante uma live após episódios de violência e humilhação praticados por outros influenciadores. Tais episódios levantam debates sobre a responsabilidade das plataformas na gestão de conteúdos que podem gerar danos fora do ambiente digital.
Autoridades brasileiras também se manifestaram sobre o incidente. A deputada federal Erika Hilton (Psol) acionou o Ministério Público do Rio de Janeiro contra a plataforma, criticando a transmissão de ofensas homofóbicas na rua, sem consentimento da vítima. O Ministério Público do Rio confirmou o recebimento da denúncia, que está em fase de distribuição, enquanto a Polícia Civil instaurou investigação para apurar as circunstâncias do caso.
A discussão sobre a atuação da Kick ocorre em um contexto mais amplo de pressão sobre plataformas de transmissão ao vivo no Brasil. Recentemente, o governo federal também intensificou ações contra o Discord, após uma adolescente de 13 anos em Mato Grosso do Sul ser exposta a conteúdos nocivos na plataforma, levando a medidas de bloqueio e suspensão de funcionalidades, incluindo o recurso de transmissões ao vivo. Essas ações refletem a crescente preocupação com a segurança de usuários, especialmente menores, e a responsabilidade das plataformas na gestão de conteúdos potencialmente prejudiciais.








