Uma investigação conduzida pela organização Mercy for Animals (MFA) revelou a prática de trituração de pintinhos machos recém-nascidos em um incubatório de grande porte na região Sul do Brasil, expondo uma rotina comum na indústria de ovos. Segundo a organização, aproximadamente 35 mil pintinhos foram mortos em um único dia na unidade investigada, cujo nome permanece em sigilo. Os animais, com menos de 24 horas de vida, eram colocados em máquinas equipadas com lâminas rotativas de alta velocidade, uma prática adotada porque os machos não produzem ovos e, segundo a investigação, não apresentam características genéticas consideradas adequadas para a produção de carne.
A separação dos pintinhos machos das fêmeas ocorre logo após o nascimento, destinando-os ao descarte, uma prática que tem sido alvo de críticas por parte de defensores dos direitos animais. A vice-presidente de Investigações da MFA, Luiza Schneider, esclareceu que o objetivo da investigação não foi apurar uma denúncia específica, mas documentar uma prática amplamente disseminada na cadeia produtiva de ovos, cuja questão central é o bem-estar animal. Ela destacou que os pintinhos recém-nascidos possuem plena capacidade de sentir dor e medo, por terem o sistema nervoso completamente desenvolvido nesse estágio.
A investigação também aponta que, em alguns casos, os maceradores mecânicos utilizados para eliminar os pintinhos machos nem sempre provocam a morte imediata, o que pode prolongar o sofrimento dos animais. Além do descarte de machos, a organização registrou o descarte de fêmeas com deformidades, sangramentos, nascimento prematuro ou que excediam a demanda dos criadores, evidenciando uma prática de eliminação também de animais considerados inadequados para a produção.
Como alternativa ao método de descarte, a MFA sugere a adoção da tecnologia de sexagem in ovo, que identifica o sexo do embrião durante a incubação. Essa tecnologia permite a retirada dos ovos com embriões machos antes mesmo da eclosão, evitando o nascimento dos pintinhos e seu posterior descarte. A sexagem in ovo já é empregada em diversos países, como na União Europeia, onde, em junho de 2023, cerca de 130 milhões de ovos de um total de aproximadamente 340 milhões de poedeiras eram produzidos por esse método. Países como Alemanha, França, Áustria e Itália já possuem legislações que proíbem a trituração de pintinhos, enquanto Noruega e Suíça avançam na eliminação da prática por decisão de mercado.
No Brasil, a tecnologia de sexagem in ovo foi instalada pela primeira vez em julho de 2025, na incubadora da Hy-Line do Brasil, localizada em Nova Granada, no interior de São Paulo. A iniciativa contou com a parceria da Raiar Orgânicos, que possui cerca de 400 mil aves e comprometeu-se a converter toda a sua frota para a tecnologia. Os primeiros ovos produzidos com a sexagem chegaram ao mercado em dezembro daquele ano. Contudo, a adoção ainda permanece limitada devido a questões financeiras, pois o custo adicional por ave varia entre R$ 5 e R$ 10, o que representa um aumento de aproximadamente 80% a 150% sobre o valor convencional, que é de cerca de R$ 7 por ave. Ainda assim, especialistas apontam que esse custo pode ser diluído ao longo do ciclo de produção, considerando que uma poedeira produz cerca de 350 ovos, o que tornaria o acréscimo por dúzia de ovos relativamente pequeno para o consumidor.
Segundo Vanessa Garbini, vice-presidente de Relações Institucionais e Governamentais da MFA, o interesse de outros países na implementação da sexagem in ovo demonstra que os custos não inviabilizam a mudança. Ela destaca que países como Suíça e Noruega adotaram a tecnologia mesmo sem legislação obrigatória, motivados pelos benefícios para os consumidores e o bem-estar animal. No Brasil, há sinais de interesse do setor industrial, com empresas como Planalto Ovos, Grupo Mantiqueira e Korin comprometidas a suspender a trituração, condicionando a decisão à viabilidade econômica da tecnologia.
No âmbito legislativo, o tema ainda está em discussão. O Congresso Nacional analisa projetos de lei que buscam regular a prática de descarte de pintinhos machos, como o PL 783/2024, de autoria da deputada Luciene Cavalcante (PSOL-SP), que já passou por comissões na Câmara dos Deputados, embora receba parecer contrário na Comissão de Agricultura. Outro projeto, o PL 3034/2026, apresentado pela deputada Helóisa Helena (Rede-RJ), está em fase inicial de tramitação. A legislação ambiental brasileira já proíbe práticas que configurem maus-tratos a animais, o que pode embasar debates sobre a questão, embora a avaliação jurídica seja de responsabilidade das autoridades competentes.
A MFA anunciou a intenção de encaminhar uma denúncia ao Ministério Público para que os órgãos responsáveis avaliem as práticas evidenciadas na investigação. Pesquisas de opinião realizadas pela Innovate Animal Ag indicam que uma maioria dos consumidores brasileiros se mostra desconfortável com o abate de pintinhos machos, com 73% afirmando esse sentimento. Além disso, 76% concordam que a indústria deveria buscar alternativas, e 79% demonstram interesse em adquirir ovos produzidos por sexagem in ovo, dispostos a pagar, em média, R$ 3,87 a mais por dúzia.
Luiza Schneider afirmou que a falta de informação é um dos fatores que contribuem para a pouca mobilização social contra essas práticas, reforçando a necessidade de maior transparência. Vanessa Garbini reforça que a conscientização sobre o que ocorre na indústria é fundamental para impulsionar mudanças legislativas e de mercado, já que, uma vez conhecendo a realidade, fica difícil aceitar práticas que submetem animais à crueldade enquanto ainda conscientes.









