Uma pesquisa divulgada nesta segunda-feira, 17 de agosto, revela que a maioria dos eleitores brasileiros é contrária ao uso de inteligência artificial (IA) em campanhas políticas. Conduzido pela Quaest Pesquisa e Consultoria em parceria com o jornal O Globo, o levantamento ouviu 2.004 pessoas entre os dias 10 e 13 de agosto, apresentando uma margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos e um nível de confiança de 95%. Os resultados indicam que 73% dos entrevistados desaprovam a utilização de ferramentas de IA no contexto eleitoral, evidenciando uma resistência significativa à adoção dessa tecnologia nas próximas eleições.
O estudo também aponta diferenças no grau de rejeição conforme o perfil demográfico e ideológico. Entre as mulheres, a rejeição é ainda mais expressiva, atingindo 78%, enquanto entre os homens, esse índice fica em 69%. Quanto à orientação política, a resistência à IA permanece elevada em todos os segmentos. Especificamente, o grupo de eleitores da esquerda não lulista lidera a desconfiança, com 79% de oposição às aplicações tecnológicas no debate eleitoral. Na outra ponta, eleitores de direita que não apoiam Jair Bolsonaro apresentam uma rejeição de 69%, embora essa seja a menor taxa entre os grupos analisados.
A controvérsia envolvendo o uso de inteligência artificial em campanhas ganhou destaque após um episódio recente na campanha do candidato à presidência, Flávio Bolsonaro (PL). Em 25 de julho, durante a convenção do Partido Liberal (PL), uma gravação gerada por IA mostrou Jair Bolsonaro afirmando estar “preso e calado por uma decisão arbitrária”, mas reforçando que “nenhuma prisão vai calar o sentimento de esperança”. Na mesma mensagem, a gravação também pediu que os apoiadores recebessem Flávio Bolsonaro de braços abertos, reforçando sua candidatura ao Palácio do Planalto.
A repercussão do episódio levou o Partido dos Trabalhadores (PT) e a Federação Brasil da Esperança — composta por PT, Partido Verde (PV) e Partido Comunista do Brasil (PCdoB) — a acionarem o Supremo Tribunal Federal (STF) e a Justiça Eleitoral. Os partidos alegam que o conteúdo produzido com IA configura propaganda eleitoral antecipada e tentativas de contornar as medidas cautelares impostas a Jair Bolsonaro, além de representar uma forma de manipulação de informações. Em resposta, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) agendou uma reunião para esta terça-feira para discutir o tema, demonstrando a preocupação do órgão com os desdobramentos do uso de IA no processo eleitoral.
Dentro do TSE, há uma divisão de opiniões sobre as punições cabíveis. Alguns ministros sugerem a possibilidade de proibir totalmente o uso de inteligência artificial em campanhas ou aplicar multas às campanhas que utilizarem essa tecnologia de forma irregular. O debate ocorre em um momento de crescente atenção às implicações éticas e legais do uso de IA nas eleições brasileiras, especialmente diante do potencial de desinformação e manipulação de imagens e vídeos.
A pesquisa realizada pela Quaest revela um cenário de ceticismo por parte da população brasileira quanto à incorporação da inteligência artificial no ambiente político. Os números indicam uma resistência significativa, que pode influenciar o desenvolvimento de regulamentações futuras e o comportamento dos candidatos nas próximas eleições de 2026. A discussão sobre o uso ético, legal e estratégico da IA, portanto, permanece em evidência, refletindo as preocupações de diferentes setores da sociedade e do sistema eleitoral brasileiro.









