O filme “Acampamento Miasma – Adolescência, Sexo e Morte” tem sido uma das produções mais frustrantes do ano, especialmente considerando sua recepção inicial positiva no Festival de Cannes, realizado em maio de 2023. Dirigido por Jane Schoenbrun, cineasta conhecida por seu trabalho anterior, o longa busca, de forma ambiciosa, homenagear os clássicos do gênero slasher dos anos 1980, ao mesmo tempo em que tenta explorar temas relacionados ao despertar sexual através do cinema de horror. No entanto, a produção acaba por se limitar a repetir clichês óbvios, sem oferecer novidades ou aprofundamento relevante.
A narrativa acompanha Kris Williams, uma cineasta queer interpretada por Hannah Einbinder, que é contratada para dirigir um reboot da série de terror “Acampamento Miasma”. A personagem tem a missão de, ao menos simbolicamente, apagar a transfobia explícita presente nos filmes originais, ao mesmo tempo em que busca reconectar-se com Billy Presley, interpretada por Gillian Anderson. Billy é uma atriz reclusa que protagonizou a produção original e vive no acampamento abandonado que serviu de cenário para os filmes. A relação entre Kris e Billy revela-se como uma conexão tanto emocional quanto sexual, com a narrativa explorando essa interação de forma palpável, embora superficial.
O filme também apresenta uma figura bizarra e memorável, o assassino conhecido como Pequena Morte, cuja cabeça de duto de ar condicionado e a brutalidade de suas ações — empalando vítimas — reforçam a estética grotesca do slasher. A história mistura realidade e fantasia, com elementos metalinguísticos que criticam e brincam com as regras tradicionais do gênero, especialmente em relação às suas versões modernas e remakes tardios, como “Halloween” com Jamie Lee Curtis. Schoenbrun, que já demonstrou sensibilidade ao tratar de temas de sexualidade e identidade em seu trabalho anterior, tenta subverter os clichês do gênero, mas acaba por se desculpar excessivamente ao longo do filme, criando uma sensação de esforço infrutífero para inovar.
No entanto, “Acampamento Miasma” não consegue cumprir seu objetivo de ser um filme de terror eficaz, tampouco uma comédia que funcione com humor, além de mostrar-se pobre em suas alegorias sexuais. Apesar de buscar alguma profundidade ao discutir as origens do assassino e sua relação com o simbolismo de sexualidade — especialmente ao nomear o vilão de Pequena Morte, termo francês que remete ao orgasmo —, a narrativa limita-se a uma roupagem moderna de um tema já bastante explorado: a metáfora do sexo nos slashers. Assim, a tentativa de explorar a sexualidade como uma metáfora para o crescimento e o medo é apresentada de forma óbvia e superficial.
A diretora, que é transgênero e uma entusiasta do cinema como espaço de segurança para jovens em processo de autodescoberta, tentou expor suas experiências pessoais sob uma camada de fantasia, como já havia feito com maior sucesso em seu filme anterior, “Eu Vi o Brilho da TV”. Em “Acampamento Miasma”, no entanto, sua visão acaba sendo atropelada por uma enxurrada de referências, ideias e personagens que prejudicam o fluxo narrativo. O resultado é uma colagem de esquetes desconexos, que trocam coesão por devaneios sobre sexualidade e identidade, deixando de dialogar consigo mesmo e se tornando uma experiência fragmentada.
A estética do filme, embora inventiva e vigorosa, não consegue salvar um roteiro que patina no óbvio. A escolha de nomear o assassino de Pequena Morte, além de ser uma referência clara ao termo francês para orgasmo, revela a falta de sutileza na abordagem temática. Toda a carga dramática e o potencial de interesse do filme repousam, de forma quase exclusiva, na atuação das protagonistas. Hannah Einbinder demonstra vulnerabilidade e desconforto genuínos, elevando o nível de sua performance em comparação ao seu trabalho em “Hacks”. Gillian Anderson, por sua vez, entrega uma interpretação multifacetada, que consegue ser engraçada, misteriosa e assustadora ao mesmo tempo, evitando que seu papel caia na paródia.
Em suma, “Acampamento Miasma” representa uma tentativa frustrada de homenagear o gênero slasher, com uma narrativa que pouco consegue inovar ou envolver o espectador. Apesar do talento de Schoenbrun na direção e do esforço em explorar temas relevantes, o filme termina por se perder em referências e clichês, deixando uma impressão de tentativa vazia, sustentada principalmente pelo desempenho de suas protagonistas.








