Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, indica que é extremamente improvável que cometas tenham transportado para a Terra compostos orgânicos em quantidade suficiente para contribuir diretamente com o surgimento da vida. Simulações apontaram que moléculas como carbono, nitrogênio e cianeto de hidrogênio dificilmente resistiriam às condições de velocidade, calor e impacto durante a entrada de um cometa na atmosfera e a colisão com o solo. O trabalho foi publicado na revista Scientific Reports na quarta-feira (28).
A possibilidade de os cometas terem trazido os ingredientes necessários para a origem da vida ganhou destaque ao longo de décadas. A hipótese surgiu como uma explicação para a presença das primeiras moléculas orgânicas no planeta, especialmente porque esses compostos poderiam não existir em abundância na Terra primitiva. Nesse cenário, os cometas funcionariam como grandes reservatórios de materiais formados fora do planeta e transportados pelo espaço.
Segundo Richard Anslow, professor do Instituto de Astronomia de Cambridge e principal autor do estudo, a visão tradicional atribuía aos cometas um papel importante nesse processo justamente porque eles carregam moléculas contendo carbono e nitrogênio. Esses corpos celestes, formados por gelo, poeira e gases congelados, chegaram a ser considerados uma possível fonte das substâncias necessárias para o início da vida.
Simulações avaliaram a sobrevivência de moléculas durante o impacto
A investigação teve origem em uma proposta apresentada por Anslow e sua equipe em 2023. Os pesquisadores haviam teorizado que, em sistemas planetários nos quais os planetas orbitam muito próximos uns dos outros, cometas poderiam desacelerar ao passar de um planeta para outro. Nesse processo, eles poderiam liberar moléculas orgânicas ao longo do trajeto, criando condições favoráveis para que esses compostos chegassem a uma superfície planetária.
O grupo decidiu verificar se um mecanismo semelhante poderia ter ocorrido no Sistema Solar. A tarefa, porém, apresentou uma dificuldade: as distâncias entre as órbitas dos planetas do nosso sistema são muito maiores do que aquelas consideradas na hipótese inicial. Para avaliar o fenômeno, os cientistas utilizaram simuladores de impactos de cometas com a Terra, levando em conta as interações entre os corpos celestes e a provável composição dos cometas.
Os resultados mostraram que a chegada de moléculas prebióticas — compostos orgânicos considerados blocos fundamentais para a formação da vida — seria altamente improvável. A equipe utilizou como referência o cianeto de hidrogênio (HCN), uma molécula prebiótica encontrada regularmente em cometas do Sistema Solar.
De acordo com as simulações, mesmo que o HCN conseguisse sobreviver à passagem do cometa pela atmosfera e ao impacto com a superfície, a quantidade restante não seria suficiente para formar outros compostos. Além disso, as reações químicas necessárias teriam de ocorrer quase imediatamente após a colisão. Caso contrário, a molécula desapareceria antes de participar de processos capazes de contribuir para a origem da vida.
Anslow afirmou que, para essa hipótese funcionar, seria necessário reunir uma combinação excepcional de fatores. O impacto teria de ocorrer com velocidade e ângulo específicos, e as reações posteriores precisariam acontecer na concentração e no ritmo adequados. Por isso, o pesquisador classificou o cenário como um evento extremamente raro, que poderia ocorrer uma vez em um milhão.
A hipótese dos cometas não foi completamente descartada
Apesar das limitações identificadas, os pesquisadores não descartam totalmente a possibilidade de os cometas terem desempenhado algum papel. Para Anslow, a contribuição desses corpos celestes poderia ter acontecido, na melhor das hipóteses, como uma coincidência isolada e muito incomum.
Uma alternativa considerada pelos cientistas é que os compostos orgânicos tenham chegado à Terra por meio de asteroides. Embora ambos sejam corpos celestes que podem atingir planetas, cometas e asteroides têm características diferentes. Os cometas são compostos principalmente por gelo, poeira e gases congelados e podem evaporar quando passam perto do Sol. Já os asteroides são corpos sólidos, formados por material rochoso ou metálico.
A hipótese dos asteroides é considerada plausível porque esses objetos foram atraídos para a órbita da Terra com mais frequência. Cometas atingiram o planeta durante seus primeiros 500 milhões de anos, mas se tornaram menos comuns depois desse período. Assim, os asteroides podem ter oferecido mais oportunidades para o transporte de compostos orgânicos.
Outra possibilidade é que as moléculas necessárias tenham sido produzidas pela própria Terra, por meio de reações químicas que ainda não são completamente conhecidas pelos pesquisadores. Até o momento, o estudo não apresenta uma resposta definitiva sobre a origem da vida, mas ajuda a restringir os cenários considerados mais prováveis.
Os resultados também podem orientar a busca por vida fora do Sistema Solar. Com o uso de tecnologias como o telescópio James Webb, os astrônomos poderão investigar sistemas planetários nos quais os cometas tenham condições de “saltar” entre planetas próximos. A identificação desses ambientes pode ajudar a definir onde procurar sinais de compostos orgânicos e de possíveis processos relacionados ao surgimento da vida.








