Uma revisão científica publicada nesta quarta-feira (26) na revista Cochrane Database of Systematic Reviews reforça a hipótese de que os cigarros eletrônicos com nicotina podem ser mais eficazes do que terapias tradicionais na ajuda à cessação do tabagismo. A análise, que avaliou os resultados de 80 ensaios clínicos envolvendo quase 30 mil participantes, demonstrou que usuários de vapes com nicotina apresentaram 61% mais chances de abandonar o cigarro convencional em comparação com aqueles que utilizaram métodos de reposição de nicotina, como adesivos e gomas de mascar.
A equipe de pesquisadores, composta por especialistas do Reino Unido, Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia, estima que, em média, a utilização de cigarros eletrônicos com nicotina possibilite que aproximadamente quatro em cada 100 fumantes consigam parar de fumar, em relação ao mesmo grupo que emprega terapias convencionais. Contudo, a conclusão do estudo traz importantes ressalvas, uma vez que não recomenda o uso de vapes como uma prática saudável, nem garante a segurança do dispositivo a longo prazo.
Os resultados também indicam que os cigarros eletrônicos contendo nicotina tiveram desempenho superior aos dispositivos sem a substância, embora a diferença seja menor do que aquela observada em relação às terapias de reposição. Para cada 100 pessoas, cerca de dois fumantes a mais conseguiram abandonar o cigarro ao utilizarem vapes com nicotina em comparação com dispositivos sem nicotina. Essa vantagem pode estar relacionada ao fato de que os aparelhos preservam gestos associados ao ato de fumar — como levar o dispositivo à boca, inalar e exalar o aerossol — atuando como substitutos comportamentais, além de fornecerem nicotina, o que ajuda a combater a dependência química.
Por outro lado, a própria substância que auxilia na saída do cigarro — a nicotina — é também a responsável pela dependência. Assim, a revisão não esclarece por quanto tempo o uso do vape deve ser mantido ou qual seria a melhor estratégia para descontinuar o uso do dispositivo posteriormente. Além disso, os estudos considerados na análise focaram exclusivamente em cigarros eletrônicos regulamentados, que contêm nicotina, excluindo produtos clandestinos ou aqueles que utilizam outras substâncias, como THC, presente na maconha.
Especialistas alertam para os riscos associados ao uso de dispositivos não regulamentados, que podem apresentar problemas como baterias instáveis e composição química desconhecida. Jamie Hartmann-Boyce, um dos autores do estudo, reforça a necessidade de que os usuários optem por produtos aprovados por órgãos reguladores, devido ao potencial perigo de substâncias tóxicas presentes no aerossol inalado. A revisão também evidencia que, embora os cigarros eletrônicos não produzam fumaça, eles geram aerossol por aquecimento de líquidos, o que pode liberar compostos irritantes, partículas tóxicas e substâncias químicas nocivas ao sistema respiratório e cardiovascular.
Além dos efeitos nos pulmões, há evidências de que o uso de vapes pode causar alterações na função pulmonar, prejuízos ao desempenho físico e problemas de saúde bucal, como maior incidência de cáries e inflamações gengivais. Como os cigarros eletrônicos são relativamente recentes, ainda não há décadas de dados que possam garantir a segurança do uso prolongado, diferentemente do que ocorre com o tabaco convencional. Pesquisadores destacam a necessidade de estudos de maior porte e maior duração para esclarecer possíveis riscos à saúde ao longo dos anos.
No Brasil, a discussão sobre o uso de vapes é agravada pelo contexto regulatório. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mantém proibida a fabricação, importação, comercialização, distribuição, armazenamento, transporte e propaganda de dispositivos eletrônicos para fumar. A legislação também proíbe o uso desses aparelhos em locais fechados de uso coletivo, embora não tenha criado uma proibição total ao uso individual, que permanece permitido apenas na esfera de consumo pessoal, sem autorização para venda ou importação.
A Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) reforça a posição de manter a proibição, argumentando que a restrição à comercialização é uma forma de dificultar o acesso a esses produtos, especialmente entre adolescentes. Assim, apesar das evidências de que os vapes podem auxiliar na cessação do tabagismo, a política brasileira permanece cautelosa quanto à sua liberação, diante dos potenciais riscos à saúde e da ausência de dados conclusivos sobre os efeitos a longo prazo.








